“Parece que não existe coronavírus em Florianópolis”, diz fotojornalista Eduardo Valente

Eduardo Valente, 29, começou a carreira cedo. Passou a se interessar pela área com 17 anos, quando trabalhava como programador em uma agência de fotografia. O que mais o encantou foi a possibilidade de ter uma rotina diferente daquela proporcionada pelo emprego. Para Eduardo, a vida de fotojornalista é estar sempre fazendo algo diferente. 

Focado em hard news, ou seja, nas notícias factuais, e no nicho de esporte, como grandes competições, Eduardo realmente não segue uma rotina. Marcamos para conversar num sábado de tarde, e logo depois do almoço ele perguntou se podíamos remarcar. Tinha uma pauta quente para fazer. No fim, preferiu fazê-la no dia seguinte, mas arrumar as coisas e ir para rua, independente do momento, já faz parte da vida dele.

Com quase 50kg de equipamentos distribuídos entre as costas, braços e cintura, Eduardo têm trabalhado nas ruas de Florianópolis durante a pandemia. Ainda que utilize máscara e faça a higienização cuidadosa, não se sente seguro, mas, ainda sim, segundo ele,  se sente mais seguro fotografando do que no supermercado. Usando a mesma lente que utiliza para fazer cobertura dos jogos de futebol, fica longe o suficiente das aglomerações do centro da cidade. 

Eduardo trabalhando. Foto: Thiago Ghizoni

Ele trabalha sozinho na maioria das vezes. Atualmente, tem a sua própria agência e faz parcerias com veículos como o Estadão e The Intercept Brasil. Seu dia é uma correria. Ele tira as fotos e as envia em tempo real para os parceiros. Por isso os quase 50kg de equipamentos. Como diz em meio uma risada, a vida de fotógrafo é feita de lesões.

Cobrindo a pandemia em Florianópolis

Desde o surgimento do novo coronavírus, Eduardo tem ido ao centro de Florianópolis registrar o movimento. Percebeu que no início, logo que foi decretada a quarentena, havia poucas pessoas na rua. Com o drone, fez imagens das ruas vazias e, quando compara com as fotos mais recentes, se espanta: 

— Parece que não existe coronavírus em Florianópolis.

Além da cobertura rotineira, Eduardo fotografou em dois momentos importantes para a cidade: a campanha de vacinação contra a gripe e o drive-thru de testes rápidos de Covid-19. Neste último, enquanto estava lá, cinco pessoas testaram positivo para a doença. Isso foi no dia 15 de abril. Segundo a prefeitura, de 83 testes, 10 foram confirmados.

Drive-thru com testes rápidos para coronavírus em Florianópolis. Foto: Eduardo Valente

As suas fotos estão dando o que falar. É comum receber mensagens no Facebook, onde tem postado, de pessoas que foram fotografadas. Ele tenta ser imparcial nas fotos e não tem a intenção de prejudicar quem quer que seja, mas quando a foto é de uma pessoa sem máscara, ao lado de um placa da prefeitura que diz “circulação de pessoas somente com máscara”, a situação muda. 

Para Eduardo, a partir do momento em que se trata de uma informação maior do que o direito da pessoa, quando prejudica outras e infringe leis, ele pode (e deve) fotografar. 

— Minha foto é a prova de um crime. Nesse caso, não tenho como apagar. 

Foi decretado em 29 de abril de 2020, semanas depois do início da quarentena, a obrigatoriedade de utilização de máscaras por todas as pessoas que circularem pela Avenida Beira-Mar Norte, Avenida Beira-Mar Continental e no calçadão do centro de Florianópolis, inclusive durante a prática de atividades físicas. No entanto, as fotos de Eduardo mostram, constantemente, pessoas desrespeitando isso. Não é apenas uma foto. É notícia.

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Pessoas andando sem máscara ao lado de placa no centro de Florianópolis. Foto: Eduardo Valente

A importância do fotojornalismo

Eduardo considera a imprensa fundamental. Acredita que em tempos de fakes news, onde notícias são repassadas pelo WhatsApp e Facebook de fontes não confiáveis, cabe a imprensa trazer as informações de qualidade e desmentir o que é falso. Para ele, o papel da imprensa é mostrar o que está acontecendo na rua, sejam coisas boas ou ruins.

— A cidade estava vazia? Eu tenho que mostrar que a cidade estava vazia! Muito bom isso, a população aderiu. Passou uma semana e a população ficou de saco cheio e quis sair? Eu tenho que mostrar isso também!

No entanto, também é dever da imprensa estar sempre de olho em tudo que está acontecendo para ter uma sacada diferente e estar um passo à frente, como diz Eduardo. Não se contentar apenas com o básico. Ele esteve no Cemitério São Francisco de Assis, o famoso Cemitério do Itacorubi, antes do registro de mortes por Covid-19 na cidade. Já estava, pelo menos visto do alto, quase todo ocupado. Ele pergunta: Se o número de vítimas aumentar significativamente, onde vamos enterrar nossos mortos?

Cemitério do Itacorubi de cima. Foto: Eduardo Valente

Eduardo diz que trabalhar durante a pandemia é meio louco. Mas, para ele, estar trabalhando hoje é estar fazendo história. Daqui alguns anos, uma foto sua pode estar em um livro, como uma lembrança de tudo que aconteceu, e um aprendizado para que os mesmos erros não sejam cometidos novamente.

Para conferir a cobertura da pandemia em Florianópolis feita por Eduardo, é só entrar na página dele no Facebook ou seu site.

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