Comunidade Bethânia: como o lar que acolhe dependentes químicos enfrenta a pandemia

Desde o dia 18 de março, os oito recantos cumprem as medidas de enfrentamento à Covid-19 com atividades internas consideradas entre as essenciais e as externas canceladas. Mas e como fica o abraço?

“Nesse tempo de pandemia, não estamos conseguindo praticar o abraço, que faz parte do nosso carisma de acolhimento. Acreditamos que o abraço é a expressão mais evocadora do acolhimento, porque quando abraçamos outra pessoa, trazemos para perto do coração, significando perdão e verdadeiro amor”, conta o padre Elinton Costa, um dos sacerdotes da Comunidade. Bethânia é uma das comunidades católicas que abrigam e cuidam de pessoas em situações de vulnerabilidade. Dependentes químicos em drogas lícitas e ilícitas, dependência de remédios, de pessoas, do consumismo, de celulares. Segundo a filosofia do lugar, na base da comunidade está o tratamento de doenças físicas, psicoafetivas e espirituais que geram outras dependências. A pandemia e o isolamento social trouxeram desafios e produziram impactos para o Recanto de São João Batista, que é sede do projeto em Santa Catarina.

São oito recantos em todo o Brasil, distribuídos pelos estados de Santa Catarina (Casa Mãe), Paraná (4), São Paulo (1), Minas Gerais (1) e Rio de Janeiro (1), que já receberam, ao longo dos anos, mais de seis mil pessoas entre 18 e 59 anos. Desde que entram na Comunidade Bethânia, para acolhimento, os internos são chamados de “filhos” e “filhas” e um dos rituais diários é o abraço característico de Bethânia, que a pandemia suspendeu por tempo indeterminado desde de 18 de março. Não apenas o abraço, mas todas as atividades com a presença de público, como missas, retiros, confissões e atendimento de caravanas não têm data para retorno. Hoje, além cuidar da alma e do emocional de cada “filho”, Bethânia cumpre as medidas de enfrentamento ao novo coronavírus e intensifica a proteção da saúde física de todos os moradores do recanto.

Os recantos de Bethânia são repletos de tons de verde, flores e tudo que envolve a natureza | Foto: Reprodução

Os acolhidos não estão recebendo familiares e nem visita especial de todo domingo. O pré-acolhimento está sendo feito pela internet, por meio de chamadas de vídeo com os candidatos à vaga e com familiares e responsáveis. O acolhimento, por outro lado, acontece conforme a disponibilidade de vaga, priorizando pessoas que se encontram em condição de rua. No entanto, as atividades internas, ainda que tenham sofrido mudanças, continuam acontecendo e foram adaptadas para a segurança de todos. As refeições e missas internas, por exemplo, respeitam as medidas preventivas envolvendo questões de higienização e distanciamento entre os participantes. 

A partir do dia 2 de abril, através da portaria nº 340, de 30 de março de 2020, publicada no Diário Oficial da União pela Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas (Senapred), os serviços realizados pelas comunidades terapêuticas e casas de acolhimento foram reconhecidos como essenciais. Por isso, os técnicos que atuam no Projeto Pedagógico de Acolhimento Restauração Bethânia retornaram às atividades em todos os recantos. “Devem ser reforçados os cuidados em prol da saúde, segurança e bem estar da equipe e dos filhos e filhas de Bethânia”, ressalta o Departamento de Comunicação do Recanto de São João Batista.

Os colaboradores de todos os recantos também estiveram em isolamento social de 20 de março a 6 de abril, trabalhando em home office. O retorno às atividades presenciais acontece de maneira gradativa, com a utilização de máscaras, álcool em gel e distanciamento entre os funcionários, além de todos os espaços permanecerem abertos e ventilados. Todo o processo, apesar de delicado, torna-se mais fácil com o apoio da família. Sem a presença dela, a participação continua sendo fundamental mas virtual. O contato dos domingos agora acontece através de ligações de áudio e vídeo. Padre Elinton destaca que, como moram quase cem pessoas no recanto, as medidas têm que ser seguidas à risca. “Nosso grupo todo é de risco, então não podemos facilitar para ninguém. Mas o contato continua, até para que eles possam se ouvir e se ver, dependendo do meio”. 

“Sem Bethânia, eu não sei o que seria de mim”

A decisão de mudar a realidade em que vive é o primeiro passo na vida daqueles que são acolhidos em Bethânia. Seja qual for o vício, todos precisam estar dispostos a restaurar suas vidas. Roberto Wiggers está na Comunidade pela segunda vez. Natural de Joinville, norte de Santa Catarina, o técnico em eletromecânica conta que ano passado, quando decidiu fazer uma experiência em casa, voltou aos velhos hábitos. “Mesmo recebendo tudo dos meus pais, fiquei quase 15 anos da minha vida no mundo das drogas, eu vendia e usava. Da primeira vez, eu só parei de usar droga, mas dessa vez eu estou conseguindo criar uma nova essência”. 

Uma das etapas do processo de acolhimento é a restauração, que acontece por meio de encontros semanais | Foto: Reprodução

Aos 28 anos, Roberto revela o seu maior sonho: voltar para a família e cuidar dos pais. “Eles já estão numa certa idade, acho que é meu dever doar o resto da minha vida por eles. Isso a gente aprende aqui, parar de pensar só em nós e pensar no próximo”, explica. A vida que era vazia, segundo ele, hoje está restaurada. “É como se eu estivesse me reinventando, modelando o vaso que o mundo quebrou. Jesus colocou os cacos no lugar, e eu estou tentando curar aquelas feridas. É isso que Bethânia faz. Me dá uma nova perspectiva, a autonomia que a droga tinha tirado”, complementa. Além dele, muitos outros acolhidos nutrem, durante o processo de restauração, sonhos e objetivos para suas vidas. 

É o caso de Eli Fernanda. A baiana de 32 anos está há cinco meses na Comunidade e não vê a hora de reencontrar a família, em especial o filho, que ficou na sua terra natal. “Depois que eu parei de usar droga, eu posso sentir a falta que minha família faz, a falta do abraço do meu filho. Quando eu tive minha família perto de mim, o vício atrapalhava, e agora que eu quero abraçá-los eu não posso por causa do coronavírus”, confessa. Ao mesmo tempo que dói, a saudade surge como uma força para Eli. “Ela mostra que o amor que eu sinto por eles vale mais do que qualquer coisa no mundo”. Roberto enxerga a situação como um obstáculo a ser vencido. “Se eu não conseguir lidar com essa frustração, como vou lidar com as outras que o mundo vai me colocar?”, complementa. 

Além disso, ambos utilizam esse tempo para se reinventar, mergulhar ainda mais no processo que estão vivendo. “Aqui nós temos um pai espiritual já falecido, que é o Padre Léo [fundador de Bethânia], que mesmo no seu pior momento, quando estava com câncer, agradecia a Deus. Quem somos nós para reclamar?”, questiona. Depois que chegou em Bethânia, Eli diz que sente vontade de viver. “Eu não aguentava mais aquela vida, que nem pode ser considerada vida. Vida é essa aqui que eu vivo, vida plena. Aqui é lugar de saúde, alimentação que eu não tinha”. 

Em Bethânia, os acolhidos também participam de oficinas de artesanato e cursos de panificação, por exemplo | Foto: Reprodução

Uma vida dedicada ao próximo

Além do acolhimento, Bethânia também conta com a Comunidade de Vida e Aliança, formada por jovens, casais, sacerdotes ou religiosos. O papel dos consagrados, como estes são chamados, além de buscar seu propósito de vida, é doar-se pelo próximo. A principal diferença entre Vida e Aliança é que na segunda, o consagrado continua exercendo sua profissão na sociedade e vive em sua própria casa. Na primeira, porém, os membros fazem de Bethânia o seu lar e dedicam plenamente seu tempo à Comunidade. Ney Lima, consagrado de vida que vive em Bethânia há 21 anos, explica que, com a pandemia, a rotina interna da Comunidade se intensificou. “As demandas externas estão praticamente inativas, já a formação e a programação se tornaram mais intensas. Não para preencher um “tempo vazio”, e sim preencher um vazio que normalmente é gerado por falta de tempo”, afirma.

O trabalho dos consagrados na Comunidade é feito de maneira voluntária, como todos os outros desenvolvidos por ela | Foto: Reprodução

Devido ao isolamento social, Ney também está longe dos familiares que não moram em Bethânia. “A riqueza do abraço, do carinho, do toque, do cheiro, do sorriso e das lágrimas, da voz e do silêncio presente no outro. Está sendo difícil!”, acrescenta. Mas também compartilha que está utilizando este momento para enxergar as possibilidades e as oportunidades de mudança que vieram junto com a situação mundial. “A Covid-19 vai passar, mas o convite permanece: tire as máscaras, que tenhamos coragem de ser nós mesmos, amando o outro com suas limitações. No fim de tudo só vai ficar o amor com que amamos! Este amor o vírus não pode destruir, mas as máscaras podem impedi-lo de ser experienciado”, finaliza.

Conheça o sonho do Padre Léo

Há 25 anos, Padre Léo, que está hoje em processo de beatificação, idealizou e fundou Bethânia. “É para o mundo um recanto, onde aqueles que perderam o sentido da vida podem encontrar alento e esperança, podem restaurar e reconstruir suas vidas”, reitera o moderador geral da Comunidade, padre Vicente de Paula Neto. Definida como uma entidade que nasceu para ser especialista em acolhimento, Bethânia não se configura como uma clínica de reabilitação. O processo de restauração é feito a partir de quatro passos: conscientização, pedagogia integral, desenvolvimento de uma espiritualidade e criação de redes que ajudem a perseverar na caminhada.

Padre Léo, antes de entrar para o seminário, venceu o vício das drogas e tornou-se exemplo para muitos fiéis | Foto: Reprodução

“No primeiro passo, precisamos ajudar o dependente para que, no uso da liberdade e da vontade própria, decida pela libertação e restauração. Devidamente motivado, ele terá forças para lutar e querer ser mais”, explica padre Vicente. Depois, trabalham com a pedagogia integral, abrangendo as dimensões física, psicoafetiva, social, cultural e espiritual, através do catolicismo. O projeto também busca reeducar a pessoa para uma reconstrução do relacionamento e de retorno à família e à sociedade. “A última ênfase consiste em criar redes que ajudem-no a se relacionar, estudar e trabalhar, por exemplo”, conclui.

A partir desse processo, os filhos de Bethânia passam a encontrar sentido e experimentar realidades que nunca haviam se permitido por meio do projeto pedagógico, que inclui diversas atividades. “Eles buscam tirar o melhor de mim. Pela minha formação em eletrotécnica e também em refrigeração, a parte da manutenção fica comigo. Também tenho o hobby de fazer comida, então fico um bom tempo na cozinha”, relata Roberto. Ademais, todos são convidados a mudar espiritualmente, preencher o vazio anterior buscando as “coisas do Alto”, como dizia Padre Léo. “Antes eu destruía a minha vida, agora eu acordo todos os dias feliz, com a alma leve. E eu vim porque eu quis, não foi contra a minha vontade”, admite Eli.  

O primeiro recanto da Comunidade Bethânia, inaugurado em 12 de outubro de 1995, possui em suas dependências o Centro Educacional Juscélia (Ceju) e o Centro Cultural e Memorial Padre Léo, onde está o túmulo com os restos mortais do fundador | Foto: Reprodução

A Comunidade Bethânia, seja em qual recanto for, possui uma característica que tem bastante significado: não possui muros, cercas ou portões. “Quando Padre Léo sonhou com Bethânia, não sonhou um centro de recuperação. Ele pensou em um lar, onde a gente pudesse ser livre para escolher uma nova vida”, explica padre Elinton. O sacerdote também reforça a ideia de liberdade que existe em Bethânia. Nenhum filho acolhido ou vocacionado está ali por obrigação, mas por livre e espontânea vontade. “Só ficam aqueles que realmente querem fazer uma experiência de vida nova. Aqui é a casa de todos que vêm fazer a experiência de mudar de vida”, finaliza.

*As fotos com presença de público foram tiradas antes da pandemia

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4 comentários Adicione o seu

  1. Parreira disse:

    Que Deus guie e proteja de todo e qualquer tipo de mal a nossa comunidade Bethânia criada por Deus no coraçao e vida do nosso saudoso Pe. Léo e de todos que abraçaram esse projeto com a propria vida, que Deus seja tudo em todos que fizerem e fazem parte da família Bethânia hj e sempre…..

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  2. Marcela disse:

    Que matéria bacana! Conheci Bethânia em 2018, mas acabei enxergando de uma maneira mais singela e significativa ao ler esse texto. Parabéns aos envolvidos, que Deus siga abençoando!

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  3. Vítor Fernando Fernandes disse:

    Matéria linda demais! Super importante abordar temas como este.

    Amei sua escrita, Lara! Feita com carinho e ética, respeitando a história e todo o significado de Bethânia…

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  4. Thaís Souza disse:

    Incrível se inspirar em Bethânia! Matéria incrível, parabéns!

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