“É trabalhar o dia inteiro com ela pedindo alguma coisa”, conta mãe sobre o home office

Muitos acham que estar com os filhos em casa durante a pandemia é fácil. No entanto, a reclusão, o isolamento social e o trabalho podem sobrecarregar os pais ou responsáveis pela criação da criança. 

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, as relações humanas foram drasticamente afetadas. A impossibilidade de ir até ao trabalho, a saudade dos amigos e de familiares que só podem  vistos através de uma tela e as saídas de casa destinadas somente às tarefas essenciais compõem uma nova realidade. 

Para as famílias com crianças, a situação pode ser um pouco mais complicada. Já imaginou ter que explicar o porquê de não poder sair de casa e visitar os avós e amigos? Explicar que pelas próximas semanas, talvez meses, ela ficará em casa, sem acesso à rua? Se as notícias dos jornais nos dão medo, como ter uma conversa franca com uma criança pequena?

Nos primeiros dias de quarentena em que Eduarda precisou sair para trabalhar, o filho Nathan, 5, chorava de preocupação. Ele e o irmão Oliver, 3, estavam acostumados a aguardar ansiosamente pelo retorno da mãe e correr para o seu colo quando chegava do trabalho. Agora, devido à pandemia, isso precisou mudar: nada de beijos até que a higienização seja feita. “Cortou meu coração, nós somos muito amorosos uns com os outros”, conta a mãe. 

O caos da rotina

Antes da pandemia, deixar as crianças na escola era o que Juliana precisava para se dedicar ao doutorado. Da escola ia direto a Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC) e ficava estudando na biblioteca. Agora, o desafio  tem sido reorganizar a rotina para conseguir limpar a casa, preparar todas as refeições, acompanhar e orientar os filhos Leonardo, 9, e Maria Laura, 6, nas atividades que são enviadas pela escola, além dos seus próprios estudos. 

Na imagem, Juliana está sentada ao lado dos filhos, Maria Laura e Leonardo, para realização de atividades escolares.

É um desafio parecido com o enfrentado por Ana Maria, que trabalha dia sim e dia não e tem tido dificuldades de estabelecer um horário para a filha Manuela, 12, realizar as atividades da escola. Não só estabelecer, como também fazer com que Manuela queira estudar. Como relatou Juliana, é complicado criar um ambiente de estudos em casa.

Manuela não tem irmãos mais novos e fica o dia inteiro assistindo televisão ou brincando na varanda. Canta, dança e inventa amigos imaginários para lidar com o isolamento social e a distância das amigas. Ela não precisa de tanta supervisão, o que facilita bastante para que Ana tenha um descanso quando está em casa.

No caso de Eduarda, quem está cuidando das crianças é Mariel, seu companheiro. Como está desempregado, o aspirante a escritor e cozinheiro têm se dedicado a paternidade e, segundo ele, não tem tempo nem para ler. Com os dois meninos pequenos em casa, o que resta é se envolver nas brincadeiras, que vai de assistir anime até criar magias e itens mágicos com pedaços de madeira.

Home office na quarentena com crianças

Alana é analista comercial e está trabalhando home office desde o início da quarentena em Florianópolis. Está em casa com a filha Catarina, 2, o companheiro Fábio e seu cachorro, o Epaminondas. “A maior dificuldade é trabalhar e ficar com ela”, relata. Isso porque Catarina tem os horários de comer, dormir e de brincar — e não faz nenhum desses sozinha. Enquanto a filha está acordada, cabe a Alana e Fábio encontrarem brincadeiras para entretê-la.

A solução para conciliar o home office com os cuidados de Catarina foi revezar as funções, já que os dois trabalham com o telefone. E, mesmo assim, não dá para piscar. Recentemente, Catarina se trancou no banheiro e eles tiveram que quebrar a fechadura para abrir a porta. Imagine a cena! 

Para Natalia, o home office sempre foi rotina, já que empreende em sua própria agência de marketing digital e seu escritório fica em casa. Ela mora com a filha Sofia, 5, e seus pets. Costumava aproveitar o tempo que Sofia estava na escola para trabalhar e organizar os projetos, mas a quarentena veio e ainda não conseguiu estabelecer uma rotina. “Trabalhando no mínimo o dobro e recebendo menos”, lamenta.

Como toda criança pequena, Sofia gosta de brincar, assistir televisão, jogar no celular. E também gosta, principalmente, de receber atenção. “É trabalhar com ela pedindo alguma coisa”, relata Natalia. Morando em um apartamento pequeno, o que tem ajudado são as saídas semanais ao supermercado. Para entregar os serviços, Natalia tem trabalhado durante a madrugada enquanto a filha dorme. Só assim consegue dar conta. 

A nova realidade

As crianças tendem a demonstrar de diversas formas a preocupação com o novo coronavírus, independente de terem acesso à informação como adultos ou não. Catarina tem dois anos, mas basta a mãe ou o pai sair de vista que já pergunta “cadê?”. É o reflexo da quarentena: com os pais em casa, ela se apegou ainda mais e quer estar sempre perto deles. E da mesma forma que acontece com a família de Alana, acontece com tantas outras.

Em algumas casas, sair para trabalhar ainda é necessário, como Eduarda, que folga apenas no domingo e ainda lida com a preocupação diária do coronavírus por trabalhar com atendimento ao público. Ou como Ana Maria, que trabalha em hospital onde funcionários já foram infectados. No entanto, essas duas mães não têm outra opção, senão trabalhar para comprar os mantimentos básicos. Afinal, não estão lidando apenas com a própria sobrevivência.

Por outro lado, estar em casa com os filhos também está longe de ser tranquilo. Acaba sendo uma jornada dupla, muitas vezes tripla. E, como Natalia relatou, o home office nem sempre significa trabalhar em horário comercial. Na verdade, trabalhar em casa, com poucos momentos de distração e sossego, pode significar trabalhar mais e se cansar mais. 

As visitas aos avós, que eram frequentes em algumas famílias, tiveram que diminuir ou até mesmo deixar de existir. Como grupo de risco e crianças potenciais vetores do vírus, o ideal é que o contato seja através da internet, com videoconferências e redes sociais. A festa de dois anos de Catarina aconteceu assim. Os três em casa com o bolo e as comidas, e família e amigos do outro lado da tela, prestigiando o momento.

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