Dança em Libras: um passo a passo para se colocar no lugar do outro

Aquela seria a minha última oficina do Festival Social Good. Tinha acabado de participar de uma roda de conversa em uma sala e estava colocando os meus tênis quando aconteceu.

Várias pessoas entraram na sala, silenciosas, e foram para o tatame. Deixei meus tênis de lado e passei a observá-los enquanto conversavam por uma língua que eu nunca tinha feito questão de aprender. Libras. 

Olhei no aplicativo do evento e descobri que iria acontecer ali uma oficina de dança para ouvintes e surdos. Me juntei a eles no tatame, ainda em silêncio, pois não sabia como me comunicar ou me apresentar. Eu apenas sorria. Uma das mulheres me olhou e fez alguns gestos. Respondi que não entendia, então, ela perguntou num sussurro:

— Você escuta? 

Balancei a cabeça positivamente, um pouco envergonhada e nervosa por estar ali. Me levantei e assim que avistei a professora de dança, perguntei se poderia participar.

— Claro. Teremos intérpretes para vocês.

Vocês. Pela primeira vez, senti a necessidade de meios para me incluir, de alguma forma, em uma atividade. Será que pessoas surdas ou com outras deficiências se sentiam assim, perdidas e deslocadas, em locais não inclusivos? Imaginei como seria se não houvesse intérpretes naquela sala e ninguém falasse português, e logo a tristeza me abateu. Poderia esse sentimento ser comum para eles? 

No início da oficina, a professora pediu para que nós, ouvintes, evitássemos falar em português. A menos que fosse para o grupo todo através da intérprete. Suei frio, lutando contra a vontade de fugir e procurar outra coisa para fazer. Mas lembrei do que Cecília, a Ciça, a gerente-executiva do evento, me disse na oficina anterior:

— A gente tem um lema. Quem está aqui é porque é para estar. 

E era isso. Eu ficaria, aprenderia alguns passos de dança e não falaria em português. Se aquela oficina chegou até mim, talvez o ideal fosse ficar até o fim. 

Então, a professora ensinou algumas palavras em Libras e pediu para que escolhêssemos uma. A minha escolha foi empatia. O poder de se colocar no lugar do outro. O gesto era tão bonito que todos as outras palavras sugeridas pareceram inexpressivas.

As duas horas seguintes foram recheadas de passos de dança e troca de parceiros, sendo eles surdos ou ouvintes, e ensinamentos que somente com o olhar empático é possível ter. Como não sabia sequer dar oi na linguagem de sinais, quando esbarrava em alguém, só conseguia dar um sorriso. Gesto involuntário. Fiquei com o rosto dolorido de tanto sorrir.

No fim da oficina, começamos a dançar forró. E a minha maior dificuldade era pedir para que a pessoa me conduzisse, pois como desastrada que sou, não conseguia acompanhar a música para dar os passos certos. E aí, mais uma reflexão: eu podia ouvir e dançava terrivelmente mal. Já meus colegas surdos se movimentavam conforme os passos ensinados mais cedo. Passei a ver ainda mais beleza na oficina. 

Do nada, a luz se apaga. E se acende de novo. Faz parte da cultura surda, explica a professora de dança, quando é preciso chamar a atenção de uma pessoa com perda auditiva. Com isso, aprendi, mais do que nunca, a prestar a atenção ao meu redor. Nunca achei que seria fácil não me comunicar falando, mas também não imaginava que seria tão difícil aprender.

O “ser” inclusivo

Em quase todas as palestras do Festival Social Good havia tradução simultânea em Libras. Durante vários discursos, me peguei olhando os intérpretes para observar os gestos que faziam. Uma profissão sobre a qual eu sabia tão pouco. Vivendo em um país que tem a Linguagem de Sinais (Libras) como segunda língua oficial, cheguei a sentir vergonha de mim naquele momento. 

Quando questionei Ciça, que um dia já foi coordenadora do evento, do porquê das traduções, ela respondeu de forma curta e com um sorriso no rosto:

— O Festival tem essa proposta de ser para todos e abraçar as diversidades. Em 2015 foi a primeira vez que trouxemos a tradução em Libras, e desde então, estamos envolvendo cada vez mais a comunidade surda na organização, não só no festival. 

E isso eu pude comprovar. Entre os voluntários do evento, alguns eram surdos, como o fotógrafo e a mulher que me perguntou se eu era ouvinte na oficina de dança. Com isso, a vontade de conhecer mais sobre a língua apenas cresceu.

A importância de ser bilíngue (e não estamos falando de inglês aqui!)

Em minhas vindas para Palhoça, sempre reparei nos adolescentes surdos que conversavam no ônibus, o mesmo que o meu. Uma vez, um deles falou comigo. Como? Através do celular. Em bloquinho de notas, ele escreveu:

— É a fila do UNISUL? 

Surpresa com a abordagem, e ao mesmo tempo confusa com a mensagem, respondi “sim”, em alto e bom som, mas só segundos depois percebi o meu erro. Talvez o menino não soubesse ler os lábios. Constrangida, fiz o símbolo de “jóia” com a mão, acreditando ser aquele o jeito certo de dizer “sim”. Bom, agora eu sei que estava errada. 

Um tempo depois, descobri que o Instituto Federal de Santa catarina (IFSC), que fica ao lado da UNISUL, era também bilíngue… E que a sua segunda língua era Libras. Nesse momento, as coisas fizeram sentido.

A história de criação do campus bilíngue é digna de filme. Em 1988, ingressou o primeiro aluno surdo da instituição no IFSC – São José, e um grupo de professores começaram uma mobilização em prol da educação bilíngue, visto a dificuldade de comunicação. No entanto, foi apenas em 2010 que o IFSC bilíngue começou a se tornar o que é hoje. As aulas aconteciam em salas emprestadas da Faculdade Municipal de Palhoça, prova de que havia interessados o suficiente para a proposta continuar a existir.

Desde 23 de setembro de 2013, no dia nacional do surdo, o IFSC possui sua própria estrutura. O terreno foi doado pela Prefeitura de Palhoça. Hoje, a instituição conta com cerca de 1.000 alunos, estes que estão inseridos no ensino médio técnico, graduação, especialização e cursos de qualificação profissional. Em todos os cursos há a disciplina de Libras como segunda língua, e em alguns casos, até mesmo os surdos a fazem, pois chegam ao IFSC sem a fluência. 

— Muitos surdos chegam aqui no ensino médio e não tem linguagem. Não sabem que dia é dia e noite é noite, não sabem que aquela pessoa que gerou eles é a mãe…. Isso porque nunca tiveram uma língua deles. 

Ouvir isso da Luisa, estudante de Pedagogia Bilíngue (Letras/Português) da instituição, me fez ter vontade de chorar.  Era a primeira vez que eu pensava por essa perspectiva. A primeira palavra que eu disse, ainda bebê, possivelmente foi “mãe”. Por mais que naquela época não entendesse o significado de ter uma mãe, ou até mesmo do que era uma mãe, aprendi, conforme o tempo passou, que era a mulher que me carregou na barriga, me pariu e trabalhava para pagar as minhas coisas, além de me educar. Isso estava intrínseco em mim. Porque a minha mãe, assim como as outras pessoas, conseguiam se comunicar comigo desde o nascimento.

Precisei parar para refletir na fala de Luísa, que não é surda, mas está envolvida com a comunidade desde que fez um curso de 80h de Libras. Ali, ela decidiu fazer Letras Libras, mas ao descobrir o IFSC Bilíngue, o único campus com Libras como segunda língua da América Latina, Luísa não teve dúvidas: prestou o ENEM e saiu de sua cidade, Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, e veio estudar na instituição. 

O IFSC é uma instituição federal, gratuita e com ensino de qualidade.  Além de proporcionar e viabilizar uma interação entre surdos e ouvintes, a instituição também conta com um quadro de servidores que, mesmo sem o domínio da linguagem de sinais, se esforçam para se comunicar com os alunos surdos. A existência de um campus bilíngue em Libras e Português é um ato político num país que não é inclusivo e as diferenças e deficiências são tratadas com descaso. Uma instituição promover a dignidade, autonomia e inclusão é lutar por uma sociedade mais aberta, saudável e empática.

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