A vida selvagem da Pedra Branca

Por Bruno da Luz

O bairro palhocense da Pedra Branca é conhecido por suas modernas edificações e residências, uma área industrial bem estabelecida, o centro comercial mais a universidade e por fim o residencial. Tudo isso, sendo pensado em um projeto inovador. Mesmo tendo na teoria o contato com a natureza como uma das suas propostas, há também questões sobre o quanto da mata nativa e dos animais silvestres anteriores aos condomínios ainda existem, qual a relação com o bairro e o quanto a Pedra Branca mantém aspectos naturais da fazenda que era. Mesmo em situações onde parece que a vida selvagem não mantém mais presença, podemos encontrar desde resquícios de seu antigo espaço, até seus atuais espaços de resistência e por fim a fronteira do bairro com a região de mata nativa que conecta com o morro da Pedra Branca.

Para avaliar a presença da mata nativa, primeiro vamos definir corretamente os limites do bairro. Na entrada oficial para a Pedra Branca, o bairro faz fronteira com as comunidades do Jardim Eldorado, Brejaru e Jardim Aquários, que são bairros anteriores, populares e com pouca presença de vegetação. A Pedra ainda tem uma saída para o bairro Pagani, onde fica o centro administrativo de Palhoça, e uma saída em direção norte pelo interior do bairro, sendo uma alternativa à BR-101, fazendo fronteira com a comunidade Frei Damião de um lado e a mata nativa de outro. Os limites com maior presença de área verde se encontram em direção ao morro que dá nome à localidade. A natureza local é espalhada pelo entorno de uma maneira não uniforme. E também temos de relembrar que estamos falando não somente da presença de animais, mas principalmente de um grande número de plantas selvagens específicas da região.

O bairro ainda possui fragmentos da mata nativa em seu interior. Quem garante isso é Professor de Biologia da Unisul, Jasper José Zanco, que avalia também que essa presença não tem grande impacto para a vida do bairro. “No bairro em si, devido às várias construções, existem algumas árvores, arbustos e ervas dispersos, mas não possuem  importância ecológica”. Mas o professor ainda destaca que o entorno possui uma parte florestal. “Por outro lado, um grande fragmento de floresta pode ser observado em comparação ao tamanho do bairro e, nesse caso, podem ser encontradas espécies típicas da região com função ecológica”. Os fragmentos de floresta são ilhas de mata densa totalmente cercados por edificações, do mesmo tipo de vegetação que vemos quando olhamos para o morro da Pedra Branca e seus arredores. No entanto eles são visivelmente menores, ainda cumprindo suas funções ecológicas.

Foto: Fragmento florestal no bairro Pedra Branca (dentro da faixa amarela).

E a expansão do bairro será que causou impacto sobre o meio ambiente da região? O professor afirma antes que “qualquer processo de expansão urbana afeta o meio ambiente. Devemos sempre nos perguntar se esse processo foi organizado”. Mas, no caso da Pedra Branca, ele observa que não houve um dano grave generalizado ao ambiente. “Observando as áreas que deveriam ser preservadas e as áreas que, após utilizadas, não provocariam danos expressivos”.

A vegetação do entorno do bairro é parte da mata atlântica. “A vegetação nos fragmentos de floresta e em toda a região que envolve o bairro da Pedra Branca é caracterizada com o nome de “Floresta Ombrófila Densa”, um dos ecossistemas pertencentes ao bioma “Mata Atlântica”. Esse tipo de vegetação ocorre em todo o estado de Santa Catarina.

A definição de floresta, o professor toma emprestado da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). A FAO considera floresta como “área medindo mais de 0,5 hectares com árvores maiores que 5m de altura e cobertura de copa superior a 10%, ou árvores capazes de alcançar estes parâmetros. Isso não inclui terra que está predominantemente sob uso agrícola ou urbano”, define o professor.

E qual o status de preservação das espécies selvagens que vivem na região do morro da Pedra Branca? Jasper ressalta a exuberância vegetal da mata local. “Em um estudo recente realizado pelo Professor Vibrans, da FURBS, junto de outros pesquisadores, entre 2007 e 2010, observou que existem muitas espécies selvagens vivendo ainda, na região”. O professor explica que a maior riqueza de árvores selvagens no estado de Santa Catarina pode conter entre 166 e 206 espécies, observadas em cerca de 30 pontos de coletas. Cada ponto representando uma área de 4.000 m2. “Este número, aqui na Pedra Branca, pode chegar a 124 espécies arbóreas, sem considerar arbustos, ervas, bromélias, orquídeas, lianas (espécies que se enrolam e crescem sobre as árvores), briófitas, fungos (cogumelos e outros), liquens e algas. O que precisamos fazer é continuar as pesquisas, realizando inventários botânicos com maior frequência”.

Sobre o status, o professor comenta que ainda há algumas dúvidas a respeito de espécies específicas. “Com relação ao status de preservação de alguma espécie em particular, se faz necessário estudar melhor a flora da região, pois, existem espécies que deveriam e não foram encontradas, citadas no Livro Vermelho da Flora do Brasil, como é o caso da canela-preta (Ocotea catharinensis), o palmito-jussara (Euterpe edulis) e várias mirtáceas, entre elas a Campomanesia reitziana, todos em risco de extinção”.

No entanto, ele ressalta que o processo de expansão do bairro não teve influência direta na degradação deste nível de preservação. “Muitas espécies entraram no status de risco bem antes da urbanização, devido à exploração comercial extrativista irregular. O professor afirma que é preciso analisar o caso específico da Pedra Branca e pensar na regularização das áreas ainda florestadas.  “Quem sabe, no futuro próximo, formalizar uma unidade de conservação, um presente para o bairro e toda a região da área urbana do município de Palhoça”.

“A natureza lá e nós aqui”


Foto: Rua das Gardenias.

Para entendermos mais a respeito da natureza da Pedra Branca também é importante ver como os moradores locais se relacionam com ela. Jaime, morador da rua das Gardenias, a última rua da localidade ao sul, comenta a respeito da relação pessoal que ele e sua família tem com a natureza do local. “Eu me mudei pra cá por causa do trabalho vai fazer seis anos já, morava antes no Pacheco. Lá eu notava que tinha maior presença de animais do que aqui. Mais pássaros, lagartos e gambás. Aqui, mesmo morando do ladinho do morro, com mais mata, a gente vê menos espécies. O que a gente mais percebe mesmo são os pássaros, têm o pica pau, o canário, o bem-te-vi, quero quero e outros”.

Ele ressalta que apesar de sua casa estar bem situada com a natureza, tendo da sua sacada uma vista privilegiada do morro da Pedra Branca, ele não consegue sentir uma interação maior com este ambiente: “Na verdade, no começo, quando eu me mudei pra cá, nos primeiros anos eu via mais bichos. O nosso cachorro, às vezes, corria atrás dos lagartos que volte e meia entravam no terreno. Mas faz um tempo já que não vejo mais os lagartos por aqui, no terreno mesmo nunca mais entraram”.

Por fim, ele afirma que só se sente conectado de verdade com a natureza quando está fora da Pedra Branca. ”Eu tenho passado mais tempo em contato com a natureza no meu sítio em Águas Mornas, lá eu tenho dois cavalos bonitos e bem cuidados, aqui mesmo morando perto do morro não dá pra se sentir conectado de verdade com a natureza, tem uma barreira muito forte separando as casas da rua com o morro lá atrás”.

Cíntia, outra moradora do bairro, da rua das Camélias, detalha um pouco sua visão sobre o meio ambiente da rua. “Eu estou morando aqui desde 2015 quando a casa ficou pronta, e na rua mesmo eu já consigo perceber que está havendo uma degradação do meio ambiente. A calçada aqui do lado tá suja e quebrada, tinha pedaço de tijolo até na via alguns dias atrás, a via que também está esburacada, e assim ninguém pensa em arrumar”.

Ela também levanta a questão do lixo, que está sendo jogado em alguns terrenos baldios e poluindo as ruas: “Tem algumas pessoas por aqui que não têm consciência. Elas jogam os seus sacos de lixo nos terrenos sem casa, que como não tem construção, são quase só mato, às vezes eles estão para vender também mas o proprietário não liga e não faz manutenção”. Cintia conta ainda que, pela sujeira crescente, tem visto mais ratos e baratas. “Eu já vi umas duas vezes ratos saindo dos terrenos do outro lado da rua, ali tá cheio de mato e como eles têm jogado lixo com frequência é perfeito para eles”.

Ao ser questionada a respeito da natureza ao redor da Pedra Branca, Cíntia pensa logo em animais selvagens. “Nunca vi nenhum animal desses silvestres por aqui. Macaco, gambá, papagaio, isso tinha muito lá na ilha em Florianópolis onde eu morava há 15 anos. Mas aqui não vejo esses bichos. Pode parecer estranho, a gente olha daqui, vê o morro lá no fundo cheio de verde, mas no fim a natureza fica lá e nós aqui, bem longe”.

Ao fim das entrevistas, caminhando pelas ruas das casas dos entrevistados, no que parece ser um dos extremos do bairro, concluo que é possível sentir a presença da natureza local ali, mesmo com o que foi relatado pelos moradores como a “barreira invisível entre o morro e o bairro”. A “natureza selvagem” está sim ativa na Pedra Branca. Talvez diferente do que a maioria dos moradores possa associar, a conexão com a natureza não somente inclui a convivência com animais que não vemos todos os dias em cidades, inclui também o vento que é soprado pelo morro, o som ambiente dos pássaros e o imaginário dos moradores com o cenário por trás de suas casas. Tudo isso é a vida selvagem, expressando sua presença.

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