A vida é uma festa, mas sem drogas

Decidido a viver limpo, Maneca bebeu desde criança, conheceu maconha aos 12 e cocaína aos 15

Por Daniel Bá

Criado praticamente apenas pela mãe, pois o pai viajava muito, Emanuel Kirinus vivia mais nas ruas com uma galera que usava maconha e andava de skate do que em casa. Maneca, como prefere ser chamado, teve um comportamento rebelde desde cedo. Aos nove anos, já brindava o Réveillon com um copo de champanhe na mão, pedia mais um gole e acabava não se dando conta do mal que o álcool lhe causava. Hoje, aos 38, avalia que sempre teve um comportamento adicto: aos 11 anos, sua mãe já queria interná-lo e isso só acarretou pioras na sua conduta. Conheceu a maconha aos 12, a cocaína aos 15 e não parou nela.

Na vida do garoto Maneca, porém, tudo isso ainda não passava de curtição. A infância foi um pouco difícil por alguns motivos: sua personalidade rebelde, a falta do pai que estava sempre viajando a trabalho e brigas com os irmãos. Ainda com um ano de idade, mudou-se para Florianópolis, onde se criou e viveu 25 anos no bairro Trindade e dez anos nos Ingleses. Atualmente mora em Biguaçu, no Centro de Tratamento em Dependência Química Recanto Silvestre, onde foi parar após muitas experiências ruins relacionadas às drogas nas ruas da grande Florianópolis.

Em sua trajetória de vida, Maneca conheceu o crack, em menos de seis meses ele já estava completamente viciado. Usava dia sim e outro também, ficava uma semana, duas, na rua se drogando e tentando arrumar dinheiro para sustentar o vício. “Mas não é fácil sobreviver na rua. Você tem que ficar acordado à noite e dormir de dia”. Seus próprios companheiros – “porque não posso chamar de amigos” – fazem qualquer coisa por uma mixaria de dinheiro ou substância.  “Cheguei a um ponto em que não cheguei a assaltar, mas se alguém se descuidasse, eu já passava a mão”. É aquele ditado, complementa: “A ocasião faz o ladrão e ela me fez”.

Em empregos não parava mais que três, quatro meses. Só queria  dinheiro para o vício. No dia seguinte, não tinha disposição para ir trabalhar. Viveu assim por um tempo, pulando de emprego em emprego, até que teve de se internar, pois sua família lhe deu duas escolhas: “Ou tu muda, ou tu se muda”. É claro, como ele foi praticamente obrigado, não persistiu no tratamento. Com a mais recente internação, Maneca já tem 15.

Só depois de muito tempo sofrendo com as drogas, conseguiu ter uma perspectiva diferente e querer se internar para mudar de verdade, em busca de melhor qualidade de vida e conserto nos aspectos negativos do seu caráter. “O álcool e as drogas serviram só pra anestesiar um comportamento que eu já tinha”.  Sua primeira internação foi aos 23 anos. Fez todo o procedimento do tratamento, mas não se internou decidido a mudar.

A princípio, sua mais recente internação também não foi consciente. “Eu também não queria; me internei só porque não tinha mais o que fazer, nem pra onde ir”. Está no Recanto Silvestre como último refúgio. “Agora eu quero mudar de verdade, não estou aqui só para fugir da miséria da rua, estou aqui para um recomeço, eu estou fazendo tudo diferente dessa vez.”

Bem humorado e sincero, Maneca reconhece que nunca gostou de trabalhar, mas sempre adorou namorar. E nisso as drogas davam uma força, “para falar com as mulheres”. Levou um fora de uma e disse que as drogas o ajudavam com isso também, funcionando como um anestésico para conseguir lidar com as frustrações da vida. Ele acredita que toda pessoa tem seus altos e baixos, mas com um adicto como ele a situação é bem mais forte. “Comigo, era um pico de euforia, outro de depressão”. Hoje, ele quer ficar longe das drogas para buscar o equilíbrio.

Com os olhos cheios de esperança, Maneca enfatiza: “Eu só quero paz de espírito, sabe? Aproveitar todos os momentos, olhar um pouco mais para essas cachoeiras, a natureza, viver um dia após o outro, viver o dia de hoje, que é o maior presente de Deus”. A partir de agora, também não quer perder tempo com coisas bobas: “Não quero saber se a zebra é branco no preto ou preto no branco, eu quero é saber onde tá o resto da tinta!”, exclama, usando essa metáfora para explicar que quer se manter limpo.

Ele mesmo admite que nunca deu muita importância para família. E as drogas ajudaram a distanciá-lo ainda  mais. Para usá-las, dava-se a desculpa de que seu pai bebia e sua mãe fazia uso de remédios fortes. Depois que o pai faleceu, caiu a ficha do que realmente é a vida e o quanto ela vale. Nas suas primeiras internações, ele sempre tinha recaídas quando chegava no período de ressocialização,  quando os internos ficam um tempo fora da comunidade. Voltava para a casa como se nada tivesse acontecido. Hoje,  reconhece que tudo o que faz na comunidade ou fora dela, não é pra ninguém mais além dele.

Embora reconheça seu desprezo pelo trabalho, fora do Recanto, a atividade com a qual mais se identificou foi mexer com a terra, com plantas, fazer artesanato, pulseiras, casinhas em miniatura.  Contou que não dá pra sobreviver disso, a não ser que  invista em equipamentos, mas  essa  é uma das maneiras de encontrar paz.  Disse que não quer fazer planos para o futuro e nem pensar muito no passado, pois não quer voltar onde já esteve nem estragar o que está por vir.

Na sua última internação, Maneca já não aguentava mais ficar dentro da casa Recanto Silvestre. A abstinência gritava mais alto que sua força de vontade. Estava a ponto de desistir de tudo e voltar para o mundo das drogas sem rumo algum, até que a fé dele prevaleceu e então pediu qualquer tipo de sinal divino como prova de que não era para desistir da sua caminhada. “No mesmo momento, Deus  mandou um gatinho miando muito alto que saltou de trás de mim, e esse gatinho não saiu mais de perto de mim desde então”. Ele acredita que o gato é como um anjo que foi enviado como sinal para que  pudesse ver que não estava sozinho e assim não desistir. Acredita em tudo isso, em uma conexão, em uma ligação espiritual. Acredita na importância de ter fé porque ela é a força que ajuda a pensar em um recomeço, em uma vida nova. “Estar limpo só por hoje”.

Perfil de Emanuel Kirinus - Daniel Bá
Maneca ama e valoriza muito o seu “pequeno” sinal divino (Foto: Paulo Henrique)
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