História de um homem que julga não ter história

Marcelo está em sua primeira internação e a falta de expectativas é um fator recorrente em seu tratamento  

Por Vitória Garibaldi

A decisão da se internar, contrariando o indicado pelos especialistas, não partiu dele, mas de uma de suas irmãs. Marcelo Tomaz sempre foi muito próximo delas e é por quererem o seu bem que ele foi submetido a uma internação no Recanto Silvestre. Ao ouvir isso, perguntei: “Mas tu querias estar aqui, né?”. Esperava uma resposta positiva, no entanto, o que recebi foi mais um pesar do que uma aprovação. “Fui obrigado a aceitar porque o negócio estava bravo”, disse, demonstrando não ter expectativa alguma com a efetividade do tratamento.

Todos os especialistas que trabalham com dependência química enfatizam a importância da completa adesão do dependente ao tratamento. Marcelo aceitou submeter-se a ele, mas não se entregou completamente. Ele tem 53 anos e está, há dois meses experienciando sua primeira internação. Não sabe, contudo, se aguentará ficar até a graduação, que deverá acontecer dentro de quatro meses.

Não é uma preocupação em vão. Por já ter enfrentado uma situação parecida, seu medo é de que tenha uma recaída às drogas ao ter alta: “Vou ficar aqui dois, três meses limpo e pode ser que quando eu vá para a rua e volte para casa, comece tudo de novo”.

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A expressão neutra de Marcelo indicia seu desânimo quanto ao tratamento (Foto: Vitória Garibaldi)

No ano passado, após o câncer ter tirado a vida de sua mãe, Marcelo morou dois meses com alguns parentes em Chapecó. Durante esse período, conseguiu manter-se longe do álcool. Assim que voltou a Biguaçu, entretanto, viu-se sozinho e entregou-se ao vício novamente.

Depois de três anos de experiências com o crack, há cinco meses, foi protagonista de uma superação que parecia impossível: “Não sei como, mas larguei”. Após uma pausa, completou: “É difícil!”.

Superou o vício do crack, mas não o do álcool e do cigarro – os responsáveis pelo início de sua compulsão. Por incrível que pareça, foi o álcool, que ele nem considera droga, que tomou conta da sua vida.

O falecimento da mãe foi um dos fatores que agravou essa situação. “Quando ela estava aqui eu até controlava o uso porque ela era doente e eu cuidava dela, mas quando ela se foi tudo acabou: eu mergulhei fundo nas drogas”.

Pai de um jovem de 25 anos, fruto de um relacionamento que terminou quando o garoto completou cinco, Marcelo tem consciência de que foi o álcool que destruiu o casamento. Acredita que a ex-esposa tem motivos para não querer vincular-se a um alcoólatra. “Ela é pessoa boa e pessoas boas não querem gente assim”.

A relação com a antiga mulher, contudo, é tranquila e a convivência com o filho costumava ser muito boa. No momento, porém, os dois passam por uma fase de conflito. Perguntei se ele achava que essa situação mudaria quando saísse do Recanto, mas a fala dele não correspondeu exatamente ao que perguntei. “Eu pedi pra ele vir me visitar. A visita é domingo agora, aí vamo ver né”. Talvez nem ele próprio soubesse a resposta à minha pergunta.

O âmbito familiar de Marcelo é curioso. Além do filho de sangue, tem também um de coração. A ex-companheira teve outro filho e, mesmo que não possuam qualquer relação parental, os dois foram unidos pelo afeto. Marcelo dá ao filho postiço o amor paternal que não recebe há 10 anos – período em que está sem o pai, falecido de Alzheimer.

Todo o estudo que tem foi adquirido até a sétima série do ensino fundamental.   Hoje, aos 53 anos, não tem planos de terminar os estudos e fazer faculdade; diz estar velho demais para isso. “Vou trabalhar na área que eu me formar com quantos anos? 60?”.

Trabalhou em uma fábrica de embutidos e sua última ocupação estava sendo a pintura de casas. Este trabalho, inclusive, foi responsável por um sério acidente: Marcelo caiu da escada enquanto pintava uma residência e quebrou duas vértebras. Há cinco anos na fila do SUS para fazer a cirurgia, afirma em tom de brincadeira que não sabe como está conseguindo andar.

O futebol sempre foi uma de suas atividades favoritas. Desde a fratura das vértebras, contudo, não pode mais fazer o esforço que o esporte exige. Além disso, nos últimos anos, todo o seu tempo era dedicado aos cuidados da mãe doente. Assim, bater uma bolinha é um exercício que ele continua amando mesmo sem praticar há muito tempo.

Estar no Recanto não é algo que Marcelo pense ser muito positivo. Ele não gosta da comunidade, mas permanece nela. Os portões do local ficam sempre abertos, os internos podem sair quando querem. Diante disso, perguntei o que motivava a permanência dele. “Me disseram que esse é o melhor lugar da região”, disse, dando a entender que só não saía porque os outros lugares são ainda piores.

A primeira impressão que teve ao chegar no Recanto Silvestre foi pensar que estava “lascado”. Marcelo achava que não aguentaria muito tempo e comemora os dois meses no lugar. Um terço do tratamento já foi concluído. No decorrer da nossa conversa, ele mostrou não ter muitas motivações para continuar. Expectativas norteiam a vida das pessoas em geral e é isso que Marcelo precisa para que a sua recuperação tenha indícios de sucesso.


Posfácio de uma reportagem

Achando que ainda não sabia o suficiente sobre o meu entrevistado, pedi a ele que contasse uma história legal de sua vida. Fui surpreendida quando o ouvi dizer: “Uma história legal? Legal não tem nada. Esse negócio de droga é só sofrimento”.

Não, saber que drogas só trazem dor não foi uma surpresa para mim. O que deixou-me abismada, na verdade, foi constatar que um homem com três vezes a minha idade pensa não ter nenhuma história que ache digna de ser partilhada. Eu perguntei sobre a vida, ele respondeu sobre as drogas. Inconscientemente, uma vida inteira foi reduzida somente aos entorpecentes – e sobre a experiência com eles, realmente concordo que não deve haver histórias, de todo, legais.

A espiritualidade também foi assunto da nossa conversa. Esse é um aspecto de destaque nos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos (A.A) e no processo de tratamento. Ele, todavia, nunca foi muito muito ligado a isso. Agora, seu lado espiritual está em construção, um exemplo é o comparecimento diário às missas matinais da comunidade terapêutica.

Quis deixar o meu entrevistado à vontade, por isso não defini a minha entrevista como uma propriamente dita. O lugar da nossa conversa, aliás, foi a sede das liturgias que acontecem no Recanto. Estávamos na capela cercados pelos meus colegas do Curso de Jornalismo que entrevistavam os companheiros de Marcelo na comunidade.

No momento em que registraríamos a foto que acompanha esse texto, sugeri que fôssemos para um local com o qual ele se identifica mais. “Você acha que eu me identifico com algum lugar aqui dentro?”, devolveu, deixando claro sua insatisfação por submeter-se ao tratamento. Dessa vez, fui eu quem não soube o que responder.

A quantidade de estudantes que foram à comunidade era praticamente a mesma de residentes do local. Assim, apenas cerca de três internos ficariam sem dar entrevista. Eu, que pensava que os poucos que não fossem entrevistados ficariam ressentidos, esqueci-me da possibilidade de que alguns simplesmente podiam não querer isso.

E não é que esse foi exatamente o caso de quem entrevistei? Meu entrevistado é tímido e tem pânico de falar em público. Ao final de nossa conversa, admitiu que estava torcendo para que não o chamassem para falar. Soube disso e não pude deixar de expressar a minha surpresa — e talvez um toque de decepção. Ficou parecendo, afinal, que o obriguei falar quando, na verdade, o que aconteceu foi bem diferente disso.

Por fim, a timidez existente tanto da parte dele quanto da minha não foi um empecilho tão grande para o nosso diálogo. É certo que achei que a entrevista seria mais fácil do que realmente foi. É verdade também que o processo de escrita deste perfil exigiu mais de mim do que eu imaginava. Posso afirmar, contudo, que estou feliz e muito orgulhosa de tudo que o Marcelo permitiu que eu registrasse. Grata e aliviada são as palavras!

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