Entre vitórias e recaídas: a garra do Moleque Bom de Bola

Fabiano ficou chocado ao descobrir que o verdadeiro pai fora assassinado quando tinha dois anos e mais ainda quando soube que havia comprado drogas do assassino

Por Maria Eduarda Furlanetto
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Acumulando frustrações, Fabiano, foi da maconha à cocaína, mas hoje é um interno consciente em busca de recuperação (Foto: Ellinton Machado)

Começou com maconha, aos treze anos. O padrasto e o irmão mais velho já eram usuários de drogas. E “se eles podiam, eu também podia”, pensava Fabiano Coelho. Aos 16 anos de idade, foi campeão do Moleque Bom de Bola. Na final, todos os jogadores estavam com bonés nas mãos para lançar à torcida antes de começar a partida. Menos Fabiano, que não tinha ninguém para homenagear. Ele ficou frustrado com a ausência da mãe e do padrasto nesse momento tão importante de conquista. “Todos os pais dos meus amigos estavam lá, e eu não tinha ninguém. Eu joguei por jogar”.

O maior trauma, talvez o fator preponderante para levá-lo ao consumo de drogas, está ligado à figura paterna. Ainda adolescente, descobriu que o padrasto não era seu verdadeiro pai. Até então acreditava que ele era o pai biológico. Foi um grande choque saber que seu progenitor havia sido assassinado quando ele tinha apenas dois anos de idade. E outro  maior ainda ao descobrir, anos mais tarde, que tinha comprado drogas do assassino do pai.

Aos 16 anos, entregou-se para a cocaína e  largou os esportes. Também nesse período, engravidou a namorada, Fabiana. Como não queria compromisso, se recusou a assumir o filho no começo, mas depois acabou aceitando por pressão da mãe. Não se casou com Fabiana, mas viveram juntos no Estreito até os sete anos da filha. Durante esse tempo juntos, teve sua primeira internação, mas como não aceitava que o vício fosse uma doença,  permaneceu somente quatro meses na instituição. O irmão, que também era usuário de drogas, estava trabalhando em uma comunidade de tratamento. Assim, sua primeira internação ocorreu por imposição familiar.

Em uma de suas muitas recaídas, Fabiano conta que vendeu seu carro por R$ 10 mil e gastou todo o dinheiro em dez dias com cocaína. Nesse tempo, ficou em um quarto de hotel sem que a mãe soubesse o paradeiro do filho. Quando voltou para casa, sem dinheiro e arrependido, pediu à mãe que pagasse um táxi para uma comunidade terapêutica. Lembra que estava tão desmoralizado que a mãe, com medo de o filho estar manipulando-a, disse ao taxista que o levasse à instituição e depois voltasse para embolsar a corrida.

Das sete reincidências e internações, Fabiano chegou a  completar o tratamento de nove meses por duas vezes. Em uma dessas situações,  ficou sete anos e quatro meses limpo – termo usado pelos adictos para descrever seu tempo sem usar drogas. Depois de concluir a recuperação no Lar Recanto da Esperança, uma comunidade também administrada pelo padre Prim no Morro dos Cavalos, começou a atuar como coordenador.

Nesse emprego, trabalhava sete dias dentro da instituição e folgava sete. Mas como não tinha para onde ir na folga, nunca deixava o lugar. Um dia, ligou para a mãe e contou que estava trabalhando nessa comunidade. Ela respondeu que já sabia e lhe fez um convite: “Vem passar os sete dias em casa. Vem para a tua casa”.  Durante esses anos longe de drogas, voltou a praticar esportes, se reaproximou da família, da filha e trabalhou em três instituições diferentes. “Foi como se eu tivesse nascido de novo”, diz.

Depois de alguns anos trabalhando como coordenador, conheceu Juliana. Fabiano admitiu ser um homem muito ciumento com suas namoradas e como seu emprego exigiu que passasse sete dias longe de casa, pediu as contas do Lar Recanto da Esperança e foi morar com Juliana na praia dos Açores. Naquele lugar, voltou a trabalhar como saladeiro. Pouco mais de um ano depois se separaram e – muito frustrado com o fim do relacionamento – Fabiano acabou recaindo. “Eu não aceitei a perda. Sabe quando você se entrega de cabeça para uma pessoa? Você só enxerga aquela pessoa na sua vida. Eu me entreguei de cabeça nesse relacionamento”.

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Fabiano, que já trabalhou como saladeiro, traz sua experiência para a cozinha do Recanto (Foto: Maria Eduarda Furlanetto)

Entre as idas e vindas nessas instituições, esteve sempre trabalhando. Ficou quatro anos como cobrador de ônibus, depois como saladeiro em um restaurante e como entregador de marmita. “Trabalhava para sustentar meu vício”, justificou ele. Uma única vez ficou desempregado devido ao abuso de droga. O interno conta que foi pedir ajuda à mãe, mas ela negou. Com arrependimento no olhar, admite que já havia roubado muito dinheiro da mãe para comprar drogas e por isso, quando moravam juntos ela dormiu com a porta do quarto trancada. Nessa época, conta que chegou a ficar três dias morando na rua. E vendo a gravidade da sua situação – sem dinheiro, casa e auxílio da pessoa que deveria estar ao seu lado apesar de qualquer coisa – Fabiano decidiu procurar ajuda novamente.

Nessa internação – sua sétima – conta que voltou determinado. “Voltei com os dois pés no chão… Estou com esse pensamento de voltar a trabalhar com dependente químico, que me fortaleceu bastante. Toda vez que trabalhei com dependente químico, não voltei a usar droga. Eu gosto de ajudar as pessoas. Como fui ajudado, eu tentava passar o que passaram para mim”. Esse sonho o motiva a continuar a recuperação.

Hoje, aos 38 anos de idade, Fabiano sabe o que quer para a vida dele. “Não quero ser milionário. Quero ser uma pessoa digna, ajudar as pessoas, ajudar o próximo. Fazer o bem. Porque eu já fiz muito mal, para muita gente. Principalmente para mim. A primeira pessoa que eu já fiz mal em toda minha vida foi para mim”.

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