Um cálice de solidão

Viciado em bebida alcoólica durante trinta anos, Érick passou à condição de voluntário em uma clínica de reabilitação de adictos em tratamento

Por Mariana Molina

Por volta dos oito anos, ele ingeriu seu primeiro cálice de cachaça antes do almoço em família. Com 12 anos começou a gostar de caipirinha e aos 20 já não tinha mais limites ao ingerir álcool. Quando nada parecia ter solução, Érick Adolf Jacob procurou ajuda de um de seus irmãos. E em pouco tempo passou da condição de viciado para voluntário de uma clínica de reabilitação.

Em seus 48 anos de vida, o professor foi viciado em bebida alcóolica durante 30. Ao longo de 19 anos, passou por muitos altos e baixos até se livrar da dependência ao álcool. A compulsão, que começou com poucas quantidades, foi aumentando com o passar do tempo, até chegar a doses diárias de cachaça. Ele diz não gostar de cerveja e sempre preferiu a vodca. “Ao sentir o cheiro ainda tenho um forte desejo de voltar a beber, é uma luta diária”, diz Érick, que considera importante reconhecer  a adicção como uma doença incurável.

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Érick Adolf Jacob, professor de letras-português, 48 anos, trabalha atualmente na instituição Recanto Silvestre como voluntário (Foto: Mariana Molina)

É formado em letras-português e atua como professor na Universidade Federal de Santa Catarina, no Instituto Estadual de Educação e também voluntário no Recanto Silvestre, Clínica de Tratamento para adictos em Biguaçu, Santa Catarina, onde dá apoio aos residentes.

Membro de uma numerosa e conservadora família judaica de descendência alemã, nasceu em Maripá, no Paraná. Seus pais sempre tiveram o costume de tomar um cálice de cachaça antes do almoço e antes da janta e nunca desenvolveram uma compulsão pelo álcool. Com oito anos, seu pai ofereceu uma tampinha de cachaça e, ao passar do tempo, ele começou a gostar do sabor da cachaça e aumentou demasiadamente a quantidade ingerida. Nenhum dos dez irmãos tiveram problemas com bebida. Esse fato o leva a acreditar que só ele tinha a predisposição para o vício, já que todos recebiam o mesmo cálice quando crianças. Seu pai morreu cedo e sua mãe sempre o protegeu. Essa proteção fez com que por muito tempo não enxergasse sua condição de adicto e achasse que era viciado em álcool. Foi internado três vezes e, na terceira, quando ninguém mais da família acreditava que pudesse se curar, implorou ajuda para o irmão. Inicialmente ele recusou, mas, por insistência da esposa, que ficou sensibilizada com a história de Erick, internou-o. A partir de então não teve mais recaídas, conseguiu tratar a doença e reconstruir sua vida através do estudo e de trabalhos voluntários que começou a desenvolver na Clínica de reabilitação Recanto Silvestre, em Biguaçu, Santa Catarina.

As atividades voluntárias do professor no Recanto Silvestre são muito importantes, pois além de ser uma autoajuda, ele auxilia outros adictos a não terem recaídas e vencer a doença. Atualmente, a clínica abriga 28 internos, que tem histórias tão ou mais dramática do que a do próprio Érick. Dentro de uma fazenda cercada de árvores, água nascente e ar puro, os residentes participam de todo o tipo atividades espirituais, lúdicas e laborais que os ajudam a se manter longe das drogas.

Como um método psicoterápico que usa o trabalho como forma de tratamento, principalmente o manual, a laborterapia ajuda a afastar os riscos da desocupação ou da ociosidade. Atuando como uma espécie de guia, Érick comparece três vezes por semana. Na clínica ele desenvolve as mais variadas tarefas, seja dando conselhos, oferecendo um ombro amigo, auxiliando nas oficinas de fotografia, artesanato, limpeza da residência, cuidados com a horta e trabalhos na padaria.

Embora, já esteja recuperado das crises, Erick nunca esquece a experiência de adicto e continua vivendo no meio do mundo de dependentes como uma forma de tratamento: “Sou muito feliz ajudando outras pessoas a vencerem a dependência pois assim eu também me ajudo a não ter recaídas”. Dono de uma personalidade forte, diz ter dificuldade de se relacionar, mas gosta da vida sozinho. Nunca teve uma relação amorosa muito duradoura, mas afirma não sentir falta de ter uma vida a dois. “Sou feliz assim.”

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