O maestro da comunidade que canta as próprias dores

Ex-prodígio e músico de Joaçaba, Celso busca uma nova trilha sonora para sua vida

Por Alexandra Grotmann
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Celso se liberta das preocupações diárias através da música (Foto: Gilmar Mazzo Júnior)

Em uma manhã de 2006, um homem, acompanhado de um amigo, anda pela avenida Mauro Ramos em Florianópolis à procura de bebida. O álcool parecia ser a única opção de apaziguar a dor pelo que havia perdido. Foi quando se deparou com um policial, que ao enxergar a situação do outro, ofereceu-lhe o cartão de visitas de um padre e também “diretor” de um centro de recuperação de dependência química, alguém que poderia ajudá-lo. Depois de hesitar um pouco, o homem aceita o cartão, apesar de que nem o policial e nem ele sabiam se realmente o contato seria feito.

Onze anos depois, quando entro acompanhada de meus colegas estudantes de Jornalismo no Recanto Silvestre, vejo esse homem, Celso Domingo de Barros, com seu violão ao centro de uma roda de cantoria. E, mesmo sem conhecê-lo, percebo que, com sua música, desempenha uma função importante, como uma espécie de maestro da comunidade.

Nascido em Joaçaba, em família humilde, com 18 irmãos, Celso teve contato com álcool desde jovem. Mas, como o vício não se instala de “cara”, no início, ele não exagerava nas doses: controlava o que bebia para “ficar de boa”.

Nessa época Celso tinha apenas 12 anos e já trabalhava meio período em uma fábrica de móveis. Na escola, foi reconhecido como melhor aluno do município de Joaçaba e ganhou uma viagem para Brasília. A notícia causou grande repercussão na região, afinal, era um garoto de origem humilde e não muito estudioso, eleito o melhor estudante da região. A essa vitória seguiu-se outra, um concurso para menor aprendiz do Banco do Brasil.

A partir daí, o prodígio de Joaçaba teve grande ascensão profissional e assim frequentava cada vez mais círculos sociais. O consumo de álcool também aumentou e, aos 17 anos, teve o primeiro contato com a cocaína. Depois de conquistar status na sociedade, se casar e ter dois filhos, Celso começou a inverter os valores e a colocar a curtição antes de suas responsabilidades. Se envolveu em acidentes e ainda quando ganhava bem no banco, teve problemas financeiros que foram agravados após ser demitido.

Nessa época o álcool e as drogas eram grande parte da vida do homem que começou a trabalhar como Maestro no Paraná. O antigo funcionário do banco sempre teve contato com a música, que durante certo tempo foi sua forma de sustento. Após ficar dois meses sem consumir álcool e drogas, Celso acabou retornando aos maus hábitos, o que o fez voltar a Joaçaba para morar com a mãe, que acabou falecendo.

Em 2006, depois de deixar a casa da irmã em Blumenau e de encontrar aquele policial, chegou ao Recanto Silvestre e ficou comovido com a calorosa recepção. Em seis meses, “acabou” o tratamento e foi convidado pelo padre Prim a se juntar à equipe de coordenação da entidade. Mesmo sofrendo com o vício, Celso mantinha como principal qualidade a determinação.

Depois de um mês trabalhando na equipe, Celso teve seu primeiro fim de semana livre. Planejava ver os filhos ou retornar a Blumenau, mas acabou no Kobrasol, em São José, cercado por antigos vícios. O resultado foi uma recaída. Envergonhado e por respeito ao padre e amigo, o ex-coordenador não retornou ao Recanto Silvestre e preferiu se “jogar no mundo”.

Novamente a determinação de Celso não o abandonou: inconformado com sua situação, voltou a procurar ajuda em outros centros de recuperação de adictos. Passou por duas instituições, mas se estabeleceu na segunda, a Viver Livre, onde, assim como no Recanto, desempenhou papéis importantes na administração.

Celso, contudo, não aceitava qualquer tipo de falcatrua durante o tratamento e foi dispensado por não agir de acordo com política do lugar, que privilegiava internos pagantes. E foi durante esse episódio que o homem lembrou-se do Recanto e da administração justa do lugar. Depois de dispensado, Celso respondeu à diretora do seu antigo lar: “Depois de dois anos e oito meses retorno ao lugar de onde eu nunca deveria ter saído.”

Atualmente, Celso mora no Recanto com a consciência de que faz o que gosta e o que precisa. Foi encontrado por seus irmãos e pretende passar o Ano Novo com seus filhos. O mais velho, Rafael, que seguiu o antigo sonho de Celso de se tornar advogado, e o menor, Rodrigo.

E é naquela roda de música que Celso apenas com um violão e sua determinação traz aos seus companheiros, atormentados pelo passado e pelo presente, um pouco de paz e alegria, cantando com fervor suas dores e superações diárias. O maestro do Recanto nunca mais encontrou aquele policial, mas agradece por um dia ter aparecido em sua vida.

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