
Hoje eu vim falar sobre desemprego, quase como uma carta aberta. Escolhi esse tema por dois motivos: o primeiro é que eu tenho um emprego; o segundo é que meu padrasto acabou de perder o dele.
Na mesma família, temos uma linha tênue que separa quem está “mais tranquilo” por ainda ter dinheiro caindo na conta no quinto dia útil e por quem não sabe se terá dinheiro para comprar comida semana que vem. Sim, não é exagero. Essa é a minha realidade. E, futuramente, será a infeliz realidade de cerca de 25 milhões de pessoas, segundo a Organização Internacional do Trabalho.
A única certeza dos nossos dias tem sido a incerteza. Incerteza no trabalho, incerteza na conta bancária, incerteza na saúde e até mesmo no governo. Em tempos de pandemia, até mesmo carreiras sólidas estão se desfazendo por causa do vírus invisível, que até poucas semanas atrás era tida como uma “gripezinha” pelo Presidente da República Jair Bolsonaro.
Nas últimas semanas têm crescido o número de postagens na rede social LinkedIN de pessoas demitidas por causa da pandemia. Pessoas extremamente qualificadas que seriam disputadas em outros tempos, agora aceitam “o que vier” para pagar as contas que não param de chegar.
Do outro lado, temos profissionais como meu padrasto, que sem LinkedIn ou graduação, tentam a sorte depois de serem demitidos. A sorte, aliás, nunca está sozinha. Ela é uma junção de fatores que fazem com que você esteja no “lugar certo” , “na hora certa”. Não é apenas sorte quando você tem graduação, especialização, intercâmbios, mais de uma língua ou até mesmo experiências variadas. Você tem os aparatos necessários para empresas contratarem. “Sorte” é conseguir um trabalho sem nem metade disso.
E, normalmente, brasileiro não tem “sorte”. Aceitamos o que vier por necessidade. Ninguém quer ver a família passando fome. Momentos como esse, da Covid-19 trazem questões ainda mais críticas do que apenas o vírus: o romantismo por trás do sofrimento alheio. “Toda crise traz oportunidades de crescimento”; “é tempo de se reinventar no trabalho”; “se adaptar ao home office” e a famosa: trabalhe enquanto eles dormem”.
Enquanto muitos estão preocupados com a sobrevivência, diversos influenciadores e CEOs de empresas famosas inundam as redes sociais com frases de impacto e autoajuda, como o exemplo abaixo:

“Toda crise traz oportunidades. Encontre-as”. Essa frase é ótima para quem acabou de perder o emprego. Você, que foi demitido sem justa causa durante essa pandemia devido aos altos custos da empresa e baixa nas vendas, tem além do direito mínimo ao aviso-prévio proporcional ao tempo de serviço, o salário correspondente aos dias trabalhados e ainda não pagos, 13° salário proporcional, férias proporcionais e vencidas e uma indenização no valor correspondente a 40% do saldo do FGTS. Uma saída (mais ou menos) digna, quando lida em texto.
Na prática, sabemos que não é bem assim. Além de ter que negociar (e às vezes quase implorar) para receber o que lhe é de direito, muitas pessoas como meu padrasto estão recebendo seus dinheiros de forma “parcelada”, como se as contas, dividas, saúde e alimentação pudessem ser fracionadas de acordo com a disposição dos empresários em pagar seus ex-funcionários.
Ah, lembra da frase? Se não lembra, aqui está ela novamente: “Toda crise traz oportunidades. Encontre-as”. Muita gente tem achado lindo o fato de pessoas desempregadas nesta pandemia estarem usando a criatividade para levar dinheiro pra casa, vendendo máscaras, comidas por delivery, entre outras saídas (quase que desesperadas) pela sobrevivência. Claro, não tirando o mérito da famosa criatividade do brasileiro, esses atos de “oportunidades” têm salvado muitas famílias, mas só isso não é o suficiente.
O brasileiro não tem “sorte”, mas não tem azar também. Na verdade todo o brasileiro aprende a ter jogo de cintura para sobreviver, o que podemos considerar até como característica nossa. O que assusta também, pois o sofrimento não pode ser romantizado. Não em outros lugares. Aqui no Brasil, tudo pode, tudo é aceito. Até mesmo um desemprego fantasiado de oportunidade. Até mesmo um idiota fantasiado de presidente.
Muito obrigada por esse texto sensível e real. Parabéns. E que as coisas possam melhorar
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