Como escolas e famílias promovem igualdade de gênero nas brincadeiras e brinquedos

Cada escola desenvolve uma forma de lidar e promover a igualdade de gênero com as suas crianças. O Espaço Educacional Quintessência, em São José, e o Centro Educacional Zilá Rosar, em Palhoça, desenvolvem maneiras bem semelhantes de abordar o assunto com alunos e famílias.

Duas vezes ao ano, ocorre no Espaço Quintessência, no bairro Jardim Cidade, em São José, um projeto conhecido por “Troca a Troca Quintessência”, quando as crianças levam brinquedos e trocam com os colegas. Um dia levaram uma vassoura e uma pá, com as cores branca e rosa, e um menino de 3 anos escolheu levá-las para casa. Uma das professoras se sentiu perdida com a escolha do menino. Andreza Petrópolos, professora e proprietária da escola, disse que deixasse ele escolher o brinquedo que quisesse. Para Andreza, as crianças têm autonomia e as famílias devem saber que são elas que tomam as suas decisões. A família do menino estava com a escola desde que ele era um bebê e conheciam muito bem a proposta sobre igualdade de gênero, que passava também por dar acesso de todos a todos os tipos de brinquedo. 

Andreza: “Você escolheu uma vassoura e uma pá? Que legal!”

Aluno: “Legal! Agora eu vou varrer, igual a minha mamãe.”

Em conversa com a mãe do garoto, a educadora explicou a situação e a questionou sobre seu filho ter selecionado aqueles brinquedos. A mãe não via problema algum, pois agora ele, que adorava varrer a casa, teria a sua própria vassoura para isso. “A nossa mente é tão voltada para essa questão de gênero, que no primeiro movimento a gente já faz isso:  ‘nossa, é de menina, como é que ele vai chegar em casa com isso?’. E varrer é um hábito de quem quer deixar a sua casa limpa, seja homem ou mulher”.

Andreza acrescenta que conhece bem a família e sabe que o pai do menino  também possui o costume de varrer a casa, mas aposta que ainda assim o aluno deve ver a mãe fazer isso com mais frequência. A história da vassoura de brinquedo no Quintessência vence ao menos um primeiro obstáculo, que é garantir que meninos e meninas possam ter acesso às mesmas brincadeiras e brinquedos sem que se pense antes se são de algum gênero. A segunda é ainda pensar sobre as referências dos adultos para cada brincadeira, que muitas vezes tenta copiar o universo da família.

O trabalho doméstico ainda é realizado de forma muito desigual entre homens e mulheres. De acordo com o IBGE, no Brasil, 87% da população acima de 14 anos de idade realizaram tarefas domésticas e cuidado de moradores ou de parentes em 2018, o que representa 147,5 milhões de pessoas. Essa porcentagem era maior entre as mulheres. Desse total, 93% das mulheres cuidaram da casa ou de alguém enquanto entre os homens foram  80,4%. Percentualmente até parece que o cuidado da casa e dos outros é quase bem distribuído entre os gêneros e isso pode indicar que as desigualdades já foram maiores. Mas a sobrecarga das mulheres aparece mesmo quando se olha para as horas dedicadas a esse cuidado. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), referente ao ano de 2019, as mulheres que trabalham fora dedicam em média 18,5 horas semanais para afazeres domésticos e cuidados de pessoas da família, especialmente os filhos, enquanto os homens empregados dedicam 10,4 horas para essas atividades. 

Talvez brincando sem restrições de gênero, as crianças possam, no futuro, alterar essa proporção. Foi o que Andreza tentou fazer com o próprio filho, que hoje têm 22 anos. Ela conta que ele sempre a via limpando a casa e hoje é um exímio dono de casa. Ele lava, passa, cozinha e não tinha muitos exemplos do pai nessa questão, pois viajava muito a trabalho e passava apenas os finais de semana em casa. O menino imitou a mãe e nunca foi impedido disso.

Mas nem sempre as famílias deixam a criança escolher e usar os objetos como brincadeira, especialmente quando passa do trabalho doméstico para decisões com o próprio corpo. A escola possui um espaço para teatro com diversas fantasias. Um dos alunos adorava usar saltos, colares e vestidos e brincar com uma boneca que tinha lá, a barbie, que era a sua favorita. Ao chegar, ele mal deixava a mochila e já ia pegar a boneca. Após um tempo, o pai do aluno o viu com a fantasia e com a boneca na escola e disse que aquilo estava errado e informou às professoras que não o queria com fantasias e brinquedos, a não ser que fossem “de menino”. Andreza o questionou sobre quais brinquedos ele poderia brincar e o pai disse: “carrinhos, fantasias de super-heróis e acessórios como óculos masculino e chapéu”.

A educadora ressalta que o garoto tinha o costume de se maquiar em casa com a sua mãe e que reparava na maquiagem das professoras. Um dia ele disse: “Oi professora, hoje você veio com o mesmo batom que usou na festa junina, né?”, disse o garoto à professora duas semanas depois do evento da escola. Para Andreza, nada está certo ou posto. Aquele menino poderia se vestir de princesa em um dia e preferir se vestir de super-herói no outro e ela acha interessante refletir sobre isso.

Para a profissional, que é também pedagoga e especialista em supervisão, orientação e gestão escolar, fazer coisas em grupos mistos é algo do cotidiano. Não se separa meninos de meninas. Separa-se quem quer fazer uma coisa e quem quer fazer outra.  As propostas existem para que as crianças tenham autonomia de escolha e em raros momentos são separadas por critérios de idade, mas em nenhum momento por gênero. Na escola, há muitos brinquedos como bicicletas, skates, bolas de futebol, bolas de basquete e cada um escolhe com o que prefere brincar. Na escola de Andreza, muitos meninos preferem brincar com comida, de fazer churrasco e muitas meninas andam de skate. ”Isso é o respeito pelo ser e não pelo gênero”, diz a professora.

Andreza afirma que essa igualdade auxilia no desenvolvimento dos sentimentos dos alunos, como um menino que prefere cuidar de um bebê, de uma boneca. A professora lembra que isso gera zelo, carinho, atenção porque eles costumam fazer relação com o que vivenciam em casa, com a família.

“Sempre tem aquela criança que diz: ’A minha mãe disse que rosa é de menina e azul é de menino’ e o papel dos educadores é ensinar que as cores são de todas as pessoas”. Inclusive, quando formam as rodas de opinião, Andreza informa sua cor favorita para eles, o amarelo, para que entendam que é possível gostar do que quiser.

No Quintessência, a proprietária afirma que as habilidades de cada um não têm a ver com gênero, mas sim com aptidão, com interesse e esse interesse surge independente de ser um garoto ou uma garota. “A gente está ali para mostrar para eles que mesmo você sendo menino ou menina, homem ou mulher, as escolhas que você vai fazer são só suas e isso independentemente de gênero, isso é uma questão de habilidade, de gosto, de prazer pela coisa, de interesse por aquela informação, aquela vivência”.

A professora e mãe, Gabrielly Cristina Borges Machado, é educadora no Centro Educacional Zilá Rosar, no bairro Aririú, em Palhoça. A escola em que trabalha possui poucos alunos, então o hábito de trabalhar em grupos mistos é comum. Na sua turma, quando os alunos são separados em grupos, procuram explorar as habilidades de seus colegas. Se estão confeccionando um cartaz, ela explica que dentro da equipe irão delegar o melhor desenhista, quem tem a melhor letra, independente se for menino ou menina. Caso a proposta seja futebol, todos jogam e quando tem brinquedos livres, a professora diz que sempre tem meninos na brincadeira de “casinha” das meninas, muitas vezes querendo ser o pai ou o motorista. As aulas de dança também incluem os meninos.

Mas nem todos assumem o papel do motorista e do pai. Um dos garotos só gosta de brincar com as meninas. Finge ser o cabeleireiro, brinca de boneca com elas, todo o seu material é em roxo e azul pastel e seu caderno é cheio de corações, pois ele gosta muito disso. A professora acredita que, para os pais, o foco é se as crianças estão aprendendo ou não e na educação em geral. “A função do ensino é ser o centro da educação, é ilustrar sobre tudo, sem fronteiras”. Para Gabrielly, a ideia é permitir que a criança descubra seus interesses e possibilidades, sem ter diferenciação de gênero. “A igualdade educacional deve ser um direito de todos”, diz. 

Deve-se deixar as crianças serem crianças, ela acrescenta. Noah, seu filho de 1 ano, costuma reproduzir funções que ela faz em casa, coisas do seu cotidiano e isso impulsiona a sua imaginação. “Suponhamos que eu crie o Noah dentro de uma esfera feminina, ele automaticamente reproduzirá o que vê, o meio em que está exposto. Se eu criar ele dentro de um mundo “cor de rosa” ele terá apenas aquilo como parâmetro”. explica a mãe. Ela ressalta que é importante deixar as crianças brincarem com diversos brinquedos, pois cada um desperta uma habilidade diferente.

Noah, assim como sua mãe, adora livros
Noah repetindo os afazeres de sua mãe

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