De Milton a Dr. DMS – as veredas de um estudante guineense na UFSC

Diferente dos outros anos, o último 24 de setembro não foi embalado pelas comemorações do 47º aniversário da Independência de Guiné-Bissau. Sequer se pode repartir o caldo de mancara, à base de amendoim, “o mais saboroso” prato guineense.

Apesar disso, o graduando em Ciências Sociais, Milton Soares, 30, não desanimou. “Por conta dessa pandemia não vai acontecer daquele jeito, como tinha acontecido nos últimos anos, mas um pouco assim”, conta o estudante, sem tirar o sorriso do rosto, e ainda complementa que, este ano, as comemorações devem ficar apenas pelo celular. Milton está no Brasil desde fevereiro e é um dos 18 bolsistas guineenses do programa PEC-G – Programa de Estudantes-Convênio de Graduação – na Universidade Federal Santa Catarina (UFSC) no ano de 2020 e o único estrangeiro em sua sala.

O graduando tem um conhecimento enciclopédico sobre sua terra e, de vez em quando, mergulha em explicações entusiasmadas sobre sua história. Inquieto, andando de um lado para o outro com o celular na mão, emociona-se ao contar sobre o pai, falecido no último 3 de agosto. O pai de Milton havia lutado, em 1973, pela Independência de Guiné-Bissau, mas pelo outro lado: o Comando Português.

Muitos guineenses, em geral os mais fortes fisicamente,  lutaram contra a independência e a favor de Portugal integrando uma força especial. Até aquele ano, o país não passava oficialmente de um território ultramarino português, até ter a Independência reconhecida no ano seguinte após a Revolução dos Cravos, que aconteceu em Portugal. De certa forma, a história de Milton e de sua pátria são inseparáveis.

Fora das salas de aula (e das  do Zoom), Milton assume outro nome e outra linguagem. Mostrando um livro em inglês de Tupac Shakur, a quem chama afetuosamente de ídolo, começa a falar de sua carreira como rapper ainda em Guiné-Bissau. Com uma música publicada no YouTube, Dr.DMS, seu nome artístico, usa o hip hop como ferramenta de reflexão e crítica social.

Na música Ami ku tem muri, “eu que devo morrer”, o rapper rima sobre salvar sua pátria, misturando o português e o crioulo guineense (kriol). Conta que ainda pretende lançar uma música em inglês chamada I like to move it, na língua que aprendeu em uma escola missionária do grupo Youth for Christ em Bissau. Sem perceber, Milton (ou Dr. DMS) ensina os outros dentro e fora das salas de aula.

Em prática na UFSC desde 1970, o PEC-G oferece aos países em desenvolvimento possibilidades de estudos de graduação em Instituições de Ensino Superior brasileiras. Cerca de 350 bolsistas já se formaram pela UFSC graças ao programa e 110 cursam alguma graduação na universidade atualmente. A história de Milton ajuda a falar dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU,  ODS, em especial o Objetivo 4, que trata da  Educação de Qualidade.

O estudante contou ao Fato&Versão um pouco da sua trajetória em entrevista concedida on-line pelo aplicativo Zoom. Ele falou sobre suas veredas e projetos pela educação, música e pátria.

Fato&Versão: Por que estudar Ciências Sociais?

Milton Soares: Eu gosto muito das Ciências Sociais,. É um campo que tem um vasto conhecimento sobre a sociedade. No que se trata de lidar com as pessoas, é uma disciplina muito importante para que você possa saber, por exemplo, de uma história e do que acontece com a sociedade.

F&V: Como você acabou vindo ao Brasil?

Milton: Quando eu terminei o 12 º [ano] na Guiné-Bissau, eu não tinha como continuar o estudo, porque eu sou de uma família muito pobre e meus pais não tinham condição de custear meus estudos. Meu irmão mais velho, que está em São Luís do Maranhão, veio com bolsa do PEC-G, um daqueles concursos que aparecem na embaixada do Brasil em Guiné-Bissau. Quando eu soube do anúncio, fui lá ver os requisitos e depois eu fiz a inscrição on-line para o mesmo projeto. Depois que saiu a lista, nos mandaram fazer um teste e aí deu certo. Um ano depois saiu a confirmação para a entrega dos documentos para tirar o visto para Brasil.

F&V: Você aprendeu português com sua família? Em Guiné-Bissau, o português é a língua oficial, mas é uma minoria que o fala, certo?

Milton: Sim, na verdade o português se fala mais com os citadinos. Também porque o nosso crioulo mistura com o português. Principalmente para as pessoas que vão para a escola. Só que no interior é muito difícil encontrar pessoas falando português.

F&V: Mas na sua família sempre se falou português?

Milton: Na minha família, quase todos nós – exceto meus pais -, falamos português. Eu tenho dois irmãos mais velhos. O primeiro veio estudar aqui em Curitiba. Ele estudou economia de 1999 a 2007. Eu também tenho outro irmão que está no Maranhão, no seu último ano de doutorado em Ciências Políticas. Todas as minhas irmãs já fizeram o 12º [ano]. A mais velha já tinha feito Enfermagem , e a mais pequena tá cursando Pedagogia.

F&V: Como a educação é tratada em Guiné-Bissau?

Milton: Ainda não se dá muito valor. Há lugares em que a alfabetização não chega. Ela continua prevalecendo em apenas alguns lugares. E quando falamos sobre a questão de gênero, as mulheres não precisam ir à escol. Porque se forem para a escola, tornam-se um pouco mais esclarecidas e não aceitam, jamais, o ritual do casamento. E até agora, o Estado, ou seja, o governo, não está fazendo muito para que a educação melhore, como em outros países. Não há uma infraestrutura para se criar uma escola. A gente pega as palhas das palmeiras para se fazer as salas. Neste último ano, a UNICEF tá muito envolvido nessa causa da educação. Estão construindo cantinas escolares, dando mais incentivos. Mas ainda tá ainda um pouco atrás.

F&V: Tem algo que você sente falta em Guiné-Bissau?

Milton: A família. Naquele dia [3 de agosto] que eu perdi o meu pai, eu estava bem triste. Eu estava esperando que eles continuassem vivo até eu terminar a faculdade, porque era sempre o sonho dele. Na verdade, eles [pais] não tinham muita escolarização, mas sempre queriam que os filhos a tivessem. Porque a única coisa que pode ajudar uma família pobre, em uma sociedade mais pobre ainda, é a escola.

F&V: Tem algo mais que você gostaria de falar sobre Guiné-Bissau? Talvez sobre a música de guineense, a comida, alguma tradição específica?

Milton: Falando da música: você tá falando com um músico. Eu sou um músico da Nova Geração, do estilo rap. Só que não é tão agarrado – para gravar a música, precisa do dinheiro. Só tenho uma filmagem de 8 do março de 2014. Eu botei no YouTube.

F&V: E como é seu rap?

Milton: Meu estilo favorito é hip hop underground. Sou discípulo de Tupac Amaru Shakur, meu ídolo. Meu rap é crítica social construtiva. É para mudar as mentalidades retrógradas das pessoas: um olhar positivo rumo ao desenvolvimento da nossa querida Guiné-Bissau. Também tenho outro tema: Dr. DMS na luta contra o HIV.

F&V: Dr. DMS é você. Por que esse nome?

Milton: Boa pergunta… Eu tenho um tio em Portugal. Quando eu fiz o 12o. ano na escola, ele falou que ia me matricular numa universidade que existia na Guiné Bissau, na capital. Então, ele me enviou dinheiro para matrícula e alguns meses… Naquela época, eu estava também com a cabeça na música. Comecei a pensar em que nome eu devia colocar para me diferenciar de MC’s, Master, esses nomes de rappers. Como já estava na universidade, e o nosso professor costumava nos chamar de futuros doutores, ali eu falei “eu tenho que colocar Dr”. E o DMS: Demba Milton Soares.

F&V: Para terminar, Milton, qual o seu sonho?

Milton: Meu sonho é finalizar meu estudo, minha faculdade. Esse é o primeiro. Depois, voltar à minha pátria e dar meu contributo.

Perguntei se sabia exatamente o que queria fazer ao voltar a sua terra. Respondeu-me que a escolha não lhe pertencia, mas ao futuro. “Planejamos uma coisa e lá na frente aparece outra”, completou ele com seu visível bom-humor.

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