Como Mica enfrentou a primeira sessão de quimioterapia durante a pandemia

A quimioterapia é um tratamento para quem tem câncer e não pode ser interrompido. É através dela que muitas pessoas têm a chance de continuar vivendo. Em Florianópolis, o Cepon é o hospital que realiza consultas e tratamento pelo SUS e é onde Mica, de 54 anos, faz as sessões a cada 21 dias

Quando a pandemia do novo Coronavírus chegou ao Brasil, comecei a sentir um medo crescente. Medo por mim, por minha família, amigos. Mas o maior desses medos era centrado em apenas uma pessoa: Armi, minha tia materna que sempre vi como uma segunda mãe.

Há um ano, tia Mica – como a chamamos – descobriu um tumor na mama. Com pouco acesso à informação de qualidade – ela sabe escrever o próprio nome e entende os números e só – adepta desde jovem das novelas, Mica tinha uma visão completamente assustadora em relação ao câncer. Para ela, o diagnóstico foi quase uma sentença de morte. 

Ela vivia com minha avó, Anecy, que faleceu em dezembro de 2019. Desde então mora comigo, minha mãe e irmã. É complicado viver na mesma casa que uma pessoa com a saúde tão sensível durante uma pandemia. Eu, uma adulta,, poderia muito bem ser um vetor da doença. 

Mica faz parte do grupo de risco por ser imunossuprimida. A quimioterapia torna seu sistema imunológico fraco, ou seja, contrair o novo Coronavírus pode ser fatal. A cada 21 dias, ela vai ao Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon), um hospital especializado em câncer, fazer o tratamento. “Sentia medo da operação (para retirar a mama), mas depois fiquei mais calma”, diz. 

Dia 7 de abril, às 12h, saímos para mais uma sessão do tratamento no Cepon, a primeira desde o início da pandemia. Mica estava um pouco insegura: dia e noite assiste televisão. E não há nada além de ficção e o novo Coronavírus. Com máscaras e as recomendações bem frescas na cabeça, chegamos inquietas ao hospital.

Como Mica enfrentou a primeira sessão de quimioterapia durante a pandemia
Crédito: Mariana Pessoa.

As primeiras impressões

Ao descer do carro, uma surpresa: a entrada estava interditada por duas funcionárias e por aquela fita zebra super conhecida por quem assiste filmes policiais. 

Em uma mesa, logo após a faixa que interditava a entrada, havia álcool em gel, um rolo enorme de papel, dois caixotes com papéis e, no chão, um grande lixeiro, onde as funcionárias pediam para as pessoas que usavam luvas as retirassem antes de entrar. Além de nós duas, que preferíamos ficar longe da entrada, 10 pessoas. A maioria de máscara, e até aquele momento, respeitando a distância imposta por riscos no chão. 

Mica ficou nervosa com as mudanças. Na verdade, ela não gosta de nenhum tipo de mudança, mas estava precisando lidar com muitas nos últimos meses. Descobriu um tumor, fez a primeira cirurgia da vida, começou a quimioterapia, perdeu a mãe e, por fim, saiu da casa onde morava desde o nascimento.  

Uma das maiores alterações do Cepon era quanto a entrada do acompanhante. Não podia mais. Quando disse que minha tia não sabia ler e, portanto, precisava de auxílio lá dentro, uma das guardiãs da entrada questionou. Precisei ser firme: acompanhamento era necessário para ela, não opcional.

Perdi a conta de quantas pessoas estavam na entrada depois de nossa chegada. Carros particulares, táxis, vans. Todos os veículos deixavam uma ou duas pessoas ali. Em alguns momentos, as funcionárias precisavam gritar para que as pessoas ficassem longe uma das outras. Estávamos vivendo em meio à uma pandemia, não? Se Mica fosse uma pessoa apaixonada por distopias como eu, com certeza teria se perguntado se estávamos vivendo em uma. 

A importância da informação

Já no final de março, a desinformação parece ter se tornado outra doença no Brasil. Após os pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro queixando-se sobre a quarentena, o movimento contrário às recomendações da OMS se fortaleceu. 

Na ida ao Cepon, havia muitos carros na rua. Isso sem contar os stories no Instagram de pessoas visitando amigos ou indo à praia. Enquanto uns estão enfrentando a própria companhia para reduzir a curva do vírus, outros preferem curtir a vida como se não houvesse consequências para seus atos.

Dentro do hospital, mais uma surpresa: as recepções haviam mudado de lugar também porque uma das alas precisou ser isolada. Ficamos perdidas, eu por não conhecer nada da instituição e Mica por já estar acostumada com aquela rotina.

Não havia muita informação como cartazes ou placas sobre as mudanças. Tivemos que descobrir sozinhas abordando funcionários. Perdemos um bom tempo entre idas e vindas por isso. 

Quando fui tentar conversar com uma das funcionárias atrás de informação, ela não pareceu feliz. Quis logo saber o motivo de eu estar ali. Não estavam permitindo acompanhantes. Era constrangedor explicar que Mica não sabia ler, principalmente com ela ao meu lado, como coadjuvante da própria luta. 

— Olha a quantidade de pessoas que estão aqui dentro, é por isso que não estamos permitindo acompanhantes — diz ela num tom desagradável. No entanto, eu entendia a aspereza daquelas palavras. Sabe-se lá quantas vezes a sua autoridade fora questionada por familiares que queriam segurar a mão de pessoas queridas na consulta médica. Se as pessoas estavam desrespeitando a todo momento a quarentena, ali não seria diferente. 

Entendido a situação, fomos aguardar o médico. 10, 30, 60 minutos se passaram. Tempo suficiente para que uma paciente sentada a um banco de distância se sentisse incomodada o bastante para perguntar se minha tia aguardava o mesmo médico. Sim, era o mesmo.

Como Mica enfrentou a primeira sessão de quimioterapia durante a pandemia
Crédito: Mariana Pessoa.

Assim como Mica, ela também estava um pouco estressada. Além do peso de ter que realizar a quimioterapia, que pode deixá-las debilitadas por alguns dias, as mudanças não ditas, embora necessárias, e os poucos funcionários para ajudá-las no processo, deixaram tudo mais complicado. A única orientação divulgada pelo Cepon foi publicada no Instagram, dia 24 de março. Não informava nada sobre alterações estruturais.

Outra postagem, desta vez do dia 16 de março, indica a existência de um Plano Interno de Contingenciamento do Covid-19 para a instituição. No entanto, ela só informava sobre a presença de acompanhantes, sendo elas um acompanhante e uma visita por paciente, e as recomendações já conhecidas de proteção. Pessoas que apresentassem sintomas de gripe ou febre não seria permitido a entrada – um reforço muito positivo.

Entrei em contato com o Cepon na expectativa de entender o que seria esse plano interno e outras medidas que talvez estivessem sendo tomadas pela instituição. Como resposta, a Dra. Mary Anne escreveu, por e-mail, que o CEPON está seguindo as normativas do Ministério da Saúde, da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Vigilância Epidemiológica (DIVE).

Os cuidados

Durante a sessão de quimioterapia, da qual estava proibida entrar como acompanhante, Mica relatou uma preocupação sobre algumas enfermeiras que não usavam máscaras. “Fiquei preocupada porque elas ficam toda hora ali perto mexendo, picando a gente”, conta. No entanto, no restante do hospital em que estivemos, a todo momento os ambientes estavam sendo higienizados, havia álcool em gel em todas as paredes e instruções bem claras para evitar aglomerações. 

Grande parte dos pacientes à espera das consultas e, posteriormente, da quimioterapia, eram idosos. Já é difícil o suficiente conviver com pacientes oncológicos e fazer um trabalho tão bonito para reerguê-los. Embora o uso de máscaras não tenha sido respeitado por todos os funcionários aquele dia, o cuidado do Cepon  com seus pacientes é evidente quando, através das redes sociais e por cartazes pelo corredor, divulga atendimentos psicológicos gratuitos para pacientes, familiares e os profissionais de saúde. 

Mica foi para casa aliviada. Não tirou a máscara por nenhum momento, usou álcool em gel com frequência e realizou mais uma sessão do tratamento recorrente. Vê o horror da pandemia todos os dias, em todos os jornais da Rede Globo, e fica indignada com o presidente Bolsonaro e muito preocupada com o que virá, mas sente-se segura entre a família.

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