“Anota aí: eu vou sobreviver a essa pandemia porque o meu Deus é mais forte do que qualquer doença”, diz senhora de 77 anos

Para Maria Raimunda, o isolamento é muito tedioso, principalmente por ter o costume de passear. É como se estivesse doente, me sinto um lixo”.

Crédito: Kiara Silva

Maria Raimunda, ou dona Mocinha, como gosta de ser chamada, é uma maranhense de 77 anos. Sempre foi uma mulher independente e tenta ensinar isso aos filhos. “O primeiro esposo de uma mulher deve ser o diploma” é  uma das frases que mais gosta de usar. Ela tenta encontrar a liberdade de diferentes modos, o estudo é uma delas.

A liberdade é a companheira de dona Mocinha há mais de sete décadas. Ela gosta de contar uma história, para exemplificar: um dia ela entrou no banco para sacar o dinheiro da aposentadoria. Ao ver a cena, uma mulher lhe parou e perguntou: “a senhora é louca? Está sozinha, sem um acompanhante?”. Com um sorriso e, confiança na voz, dona Mocinha respondeu: “Eu não estou sozinha, estou com Deus”.

Seus pés caminham pelas ruas com o intuito de desbravar o mundo sem se prender a ninguém. Quando não utiliza os pés, recorre a outros meios como pegar um avião sozinha do Maranhão até Florianópolis para visitar seu filho. E quando não é o avião, vai de ônibus e pela janela olha com curiosidade a cidade em transformação. Gosta especialmente das feirinhas do centro.

Mas o que acontece quando o direito de ir e vir é tirado e é preciso seguir vivendo do jeito que mais detesta? Para ela, “o isolamento é muito tedioso, principalmente por eu ter costume de passear. É como se estivesse doente, me sinto um lixo”, desabafa. 

Nos primeiros dias de quarentena, ela se deslocava de máscara até a feira mais próxima de sua casa. Com o agravamento da doença, é a filha e o genro que saem para fazer as compras.

Dona Mocinha vem procurando formas de lidar com o tédio e o desânimo. Conversar com os vizinhos é um passatempo que lhe agrada. Utilizando máscara e mantendo  alguns metros de distância, dona Mocinha caminha até o portão de casa em busca de um convívio social, mesmo que de longe. Os livros, palavras cruzadas e filmes são meios que também a confortam, sempre acompanhados de um suco de limão.

A saúde psicológica é algo que também se tornou tão precioso quanto a sua liberdade. A linha tênue entre os sentimentos negativos e a quarentena faz com que dona Mocinha precise buscar força. “Não podemos entrar em pânico, pois o pavor, medo e desespero levam as pessoas a fazerem coisas ruins e isso mata mais que a epidemia”. Valorizando a fé no Deus que com orgulho mencionou a mulher do banco, Dona Mocinha enfatiza: “Já passei por tantas coisas e espero sobreviver a essa guerra. Anota aí: eu vou sobreviver a essa pandemia porque meu Deus é mais forte do que qualquer doença e eu confio nele”.

Segundo o boletim divulgado pelo Governo de Santa Catarina nesta segunda-feira (20/04), o Estado tem 1063 casos confirmados e 35 mortes por Covid-19. Dona Mocinha faz parte dos idosos que são considerados o grupo de risco da doença. 

Foto: Reprodução

Os asmáticos também fazem parte do grupo de risco. Paulo, aos 54 anos, sofre com problemas respiratórios desde os 40 anos. Além da asma, ele lida há mais de cinco anos com um problema grave na coluna, ocasionado pelo trabalho braçal pesado que exercia em uma marcenaria. Isso acabou o impossibilitando de continuar no emprego e hoje conta com o auxílio doença do Governo para sobreviver. 

Ficar em casa não é um problema para ele. Mas sente falta da liberdade de ir até o vizinho, por exemplo, conversar sobre as reformas que gostaria de fazer em sua residência. Hoje as conversas são via whatsapp. Sente falta também da ida à padaria para conversar com o moço do caixa, que sempre lhe pergunta: “como vai o seu cachorro? Ele está crescendo rápido”. Brutus, o cachorro, está bem e continua crescendo rápido, responde Paulo, como se falasse com o amigo da padaria.   

Paulo divide a casa com o filho que lhe deu um presente precioso. “Minha neta é muito importante para mim, ela tem apenas quatro meses e, nessa época de vírus, tento me cuidar não só por mim, mas por ela também”, conta.

O cuidado que ele tem com a neta é aplicado à esposa – ela continua trabalhando  mesmo durante a quarentena. O restaurante no qual exerce a função de auxiliar de cozinha funciona com a tele-entrega. Paulo se preocupa em levá-la de carro todo dia para o trabalho, para que não fique andando pela rua. Quando ela chega do expediente, garante que suas roupas sejam lavadas e que ela tome todos os devidos cuidados higiênicos. “É um momento muito difícil, mas o importante é estarmos com saúde, então procuro me cuidar e cuidar da minha família”, conclui.

O coronavírus mudou a rotina de todo o mundo. O isolamento social desafia as pessoas a lidarem com as frustrações e privações que são impostas. Também faz repensar coisas banais do dia a dia que antes não eram valorizadas. 

Kiara Silva
Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s