Crônica #1: Quando as coisas corriqueiras passam a ser perigosas

*Relato de uma estudante de jornalismo

Sufocada. Foi como me senti indo ao supermercado mais próximo da minha casa. Queria comprar frutas e macarrão – sabia que seria uma ida rápida. Logo na entrada vi os avisos sobre o novo Coronavírus, respirei fundo e acelerei o passo. Não precisava ler para saber o que estava acontecendo.

Havia muitas pessoas dentro do supermercado, mas nada como aquele supermercado varejista, que às 7h da manhã de quarta-feira já contava com uma fila quilométrica. Neste onde eu estava, os outros clientes pareciam inquietos. Olhos atentos, mãos no carrinho, pés rápidos. Ninguém queria ficar ali mais tempo do que necessário. Fora os hospitais, existe algum lugar mais perigoso, hoje em dia, do que supermercado? 

Nos corredores era impossível se esbarrar e eu parava de respirar quando passavam ao meu lado. Medo de adoecer? Não. Medo de perder alguém querido por uma simples ida ao mercado. A falta de ar, sinal de um ataque de pânico, veio só depois, quando saí do corredor e fui na padaria. Por ali, todos os funcionários usavam luvas e máscaras. Eu estava desprotegida e tinha apenas um álcool em gel na bolsa. Enquanto isso, minha mãe estava trabalhando no hospital, sem direito a quarentena. E sem máscara.

Mais cedo, no Uber, vi idosos caminhando no calçadão na Beira-Mar. Comentei com Carlos, o motorista:

— Olha só. Avisam para não sair de casa e os idosos, quem estamos querendo proteger, estão por aí.  

Carlos começou a rir. Concordou comigo, disse que era um absurdo coisas como essa em meio à pandemia. Ele não perguntou o motivo de eu estar no carro com ele, mas mesmo assim me senti um pouco irresponsável. Para mudar de assunto, comentei que era estudante de jornalismo e estava escrevendo uma reportagem sobre brasileiros na Itália. Contei que um amigo íntimo morava lá há alguns meses e, devido a essa crise, continuava desempregado. 

Ele também tinha uma história parecida. O amigo de seu irmão morava na Itália e só estava sobrevivendo graças à doações da igreja onde era pastor. Tinha dinheiro para apenas mais alguns mantimentos. Há dias evitava pensar em minorias e grupos vulneráveis. Com 23 anos, bolsa de estágio e freelas esporádicos, não conseguiria ajudar em muita coisa.

Desde que o Coronavírus chegou ao Brasil, uma de minhas melhores amigas evita sair de casa. Antes de algum caso se confirmar em Santa Catarina, ela já estava se preparando, e me preparando, para o pior. 

— Pede para ficar de home office, Mari. 

O problema, é isso que meus professores sempre dizem, lugar de repórter é na rua. Ela insistia: fica em casa. Falava isso por Whatsapp, claro. Quando não está trabalhando, ela assiste séries ou consome mais informações sobre a pandemia. Na época (poucos dias atrás), não coloquei tanta fé. Sabia que a situação era ruim, mas preferi acreditar que o Brasil estivesse preparado. Mas a verdade é que não estamos preparados nem para lidar com a normalidade. Estamos acostumados, o que é bem diferente. 

No Twitter, rede social que mais utilizo, não se fala sobre outra coisa além de COVID-19. Números de morte na Itália, o crescente número de infectados e as péssimas expectativas de melhora. Logo dúvidas e boatos começam a surgir. Seria esse um bom momento para ser estudante de Jornalismo? Um bom momento para trabalhar com comunicação? 

Então, para conseguir voltar a respirar outra vez, prefiro acessar hashtag do BBB, o programa da Globo, no Twitter. Em tempos onde a única coisa que consigo pensar é não me infectar, talvez seja melhor esquecer, apenas por um momento, a vulnerabilidade da vida

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