Da Pedra ao Frei

Como dois bairros conseguem se diferenciar e se distanciar mesmo estando um ao lado do outro

No dia 6 de Agosto de 2019, a Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Palhoça, localizou e prendeu Grazieli Scopel de Oliveira, 23 anos, natural do município de Palhoça/SC. A prisão ocorreu no bairro Frei Damião. Contra Grazieli um mandado de prisão por sentença condenatória definitiva (revogação da prisão domiciliar), expedido no dia 24 de junho deste ano, pela Vara de Execuções Penais da Comarca de Itajaí.

Grazieli cumpria pena no presídio de Itajaí em virtude de condenação pelos crimes de roubo e corrupção de menores. No ano passado teve sua pena alterada para prisão domiciliar com o uso da tornozeleira eletrônica. Entretanto, Grazieli rompeu o dispositivo eletrônico em Fevereiro, acarretando a revogação do seu benefício e a expedição do mandado de prisão, desde de então ela se encontra foragida..

Na residência onde ela foi identificada, também foram encontradas duas porções de maconha, uma faca com resquícios da droga e um recipiente plástico com 33 porções de crack embaladas individualmente para a revenda. Grazieli foi encaminhada para a sede da DIC de Palhoça onde foi apresentada à autoridade policial plantonista, além do cumprimento do mandado de prisão, também foi autuada em flagrante pelo crime de tráfico de drogas.

PEDRA BRANCA

Dias antes, o bairro da Pedra Branca entrou para a história dos empreendimentos imobiliários por um feito impressionante, vendendo em apenas três horas 100% dos lotes, 394 lotes, da primeira fase do Reserva da Pedra condomínio que será inaugurado no bairro em breve. Um empreendimento bastante inovador, se posicionando como o melhor empreendimento horizontal residencial no estado de Santa Catarina, propondo aos futuros moradores uma experiência única de viver em um bairro-cidade planejado. O Reserva da Pedra terá uma completa infraestrutura integrada ao Passeio Pedra Branca, atualmente o maior polo gastronômico, de lazer e serviços de Palhoça e redondezas. São mais de 25 opções gastronômicas e mais de 27 lojas e serviços.

Ambas as notícias foram publicadas entre os dias 14 e 15 de agosto, lendo as duas uma em sequência da outra e sem conhecer a cidade de Palhoça, você não diria que um bairro é ao lado do outro, tendo 2,8 quilômetros entre o Passeio na Pedra Branca e o ínicio do Bairro Frei Damião. Isso não é uma novidade no Brasil, onde temos vários exemplos assim, como Paraisópolis e o Morumbi em São Paulo ou São Conrado com a Rocinha no Rio de Janeiro. Lugares que escancaram a desigualdade no país.

Assustamos quando olhamos e percebemos as diferenças de infraestrutura, do acabamento e tamanho das casas, porém em um olhar mais interno, percebemos uma diferença que a visão sozinha não enxerga: a segurança desses lugares são amplamente diferentes entre si.

Quando chegamos na Pedra Branca conseguimos perceber essa diferença, não somente em relação ao Frei Damião, mas a qualquer bairro de Palhoça. Te passando uma sensação de vigilância constante, de um olhar atento a qualquer movimento seu.

“Em relação à segurança aqui do bairro, o bairro é monitorado, estamos falando em mais de 70 câmeras, uma central de monitoramento 24 horas. Câmeras com reconhecimento facial e leitura de placas de carro.” declaração de Kim Cerejo, superintendente da Associação de Moradores da Pedra Branca (AMO).

Porém, o bairro está passando por uma reformulação na segurança, aumentando o número de câmeras, “Fechamos a parceria com a Intelbras agora, que vai aumentar muito esse número de câmeras, as câmeras mais modernas do mundo vão estar instaladas aqui no bairro. Este processo já começou em 30 dias estará pronto, finalizando em setembro.” O superintendente já conta com uma nova reforma que já está planejado e mapeada, chegando a 200 câmeras pelo bairro, atingindo quase 100% das ruas e residências, monitoradas 24 horas. A AMO ainda conta com a vigilância do grupo Khronos.

FREI DAMIÃO

A comunidade mais carente da Grande Florianópolis, segundo o IBGE, está no bairro Frei Damião. O maior aglomerado de casas “sem condições” de Santa Catarina, como afirma a própria pesquisa do IBGE, realizada em 2013. Falta saneamento básico e a maioria das casas são construídas a partir de sobras de zinco, placas de compensado e madeiras reaproveitadas. Mais de sete mil pessoas no bairro Frei Damião e ao menos quatro mil sobrevivem nessas condições precárias, em que costuma faltar energia elétrica e água, além de que grande parte das ruas não são calçadas e se transformam num lamaçal quando chove. Além desses problemas o bairro é conhecido pelo tráfico de drogas, se tornando comuns as apreensões e incursões da polícia no local, para o combate ao tráfico. Como no começo do ano, quando policiais do 16º Batalhão de Polícia Militar, sediado em Palhoça, em conjunto com policiais dos batalhões vizinhos, realizaram uma operação no bairro. A ação resultou em quatro foragidos da Justiça recapturados e encaminhados à DIC e ainda outros três criminosos presos em flagrante.

Para os moradores do Frei Damião, situações como essas, acabam dificultando o relacionamento deles com a polícia. “A nossa relação com eles, não é muito agradável devido a forma de algumas abordagens a moradores que são pessoas de bem, trabalhadores e que em quase todas as vezes são tratados como marginais;  temos direitos violados tais como ser obrigados a desbloquear celulares. Eu mesmo sofri violência por me recusar a desbloquear, e isso gera revolta por parte dos moradores. Sabemos que temos criminalidade, mas a polícia está ciente de quem são, onde estão e os focos, mas infelizmente todos são tratados de forma truculenta.” a denúncia vem de Vladimir Borges Ribeiro, representante da associação de moradores do bairro.

Porém, ele ressalta a melhora nos últimos tempos com o novo comandante de polícia “já tivemos muitas conversas amigáveis e sempre chegamos a um acordo pelo bem comum, sem violência, tudo tratado com respeito e dignidade, pois a maioria não pode sofrer pelos erros de alguns”.

Em relação a como os moradores do bairro fazem a própria segurança, ele fala sobre a boa relação entre os moradores. “Nossas medidas são na coletividade, cada um cuida do que pode. Já não temos mais furtos na comunidade a anos, e quando um ladrão é pego a população se encarrega de conversar com o indivíduo. Por isso conseguimos manter a ordem das coisas, todos unidos pelo bem comum.” 

“Procuramos sempre manter a ordem, mas quando é preciso a polícia faz o seu trabalho. Temos casos isolados de violência, quando isso acontece geralmente é alguém de outra comunidade o responsável por tais atos. A maioria envolve acerto de contas ou drogas, temos muitos moradores que migraram de outras comunidades e na grande maioria são os que se envolvem nesse tipo de crime, sendo vítimas ou o autor. O que acaba manchando a imagem da comunidade.” Termina Vladimir, sobre a violência no bairro.

RELAÇÃO ENTRE OS BAIRROS

A relação entre os bairros acaba por ser discreta, com os moradores do Frei Damião trabalhando na Pedra Branca e a Pedra Branca em contrapartida tendo projetos sociais ativos no bairro vizinho.

Um elo que acaba ligando os dois bairros é a Unisul, que é fundamental para o crescimento da Pedra Branca, sendo a primeira peça do quebra-cabeça do local onde hoje o bairro está incorporado. Do lado do Frei Damião cursos da universidade ajudam projetos sociais, como o projeto de dança da ONG Dorcas, que tem uma parceria com o Centro de Referência Profissional (CREP) da Unisul.

No final a frase do Vladimir resume bem a situação, “Não tem muito o que falar, pois é um contraste grande, enquanto de um lado a infraestrutura é bem distribuída do nosso lado não temos nenhuma, mas mantemos a boa vizinhança”.  

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A diferença no número de casas e ruas da Pedra Branca para os bairros ao lado.   Foto: Google satélite.
Matheus Nogueira
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