Na última fase de jornalismo, o sonho adiado de uma profissão

No dia 7 de maio de 2019, desembarca o último dos quatro filhos de dona Ingrid no Brasil, em busca de uma vida melhor e mais justa fora da Venezuela.  Apaixonado pela comunicação Alfredo, 23 anos, cursava a última fase de jornalismo. Fazia parte de um programa na rádio 105.3 FM chamado “sin tabú” (sem tabu), além de assinar produções audiovisuais como clipes musicais e ensaios fotográficos. O amor pela profissão foi um dos principais motivos de retardar sua vinda ao Brasil. Talvez deixar tudo o que foi construído como planejamento de vida para trás tenha sido a pior das sensações.

O desejo de Alfredo era aguentar mais tempo em seu país, porém não havia condições para continuar. Ao ser questionado sobre a situação na Venezuela ele relata as dificuldades cotidianas que enfrentava: “Já não conseguia mais ir para faculdade, o serviço público não servia mais, o transporte , ônibus não prestava mais. A faculdade ficava a 30 minutos da minha casa, não poderia ir a pé — eu ficaria seis dias caminhando [em tom irônico].” 

Enquanto estudante de comunicação, pude perceber a fascinação do jovem venezuelano com a vivência realizada pelo primeiro ciclo do Curso com imigrantes da região metropolitana de Florianópolis. Seus olhos brilhavam com a montagem dos equipamentos. A vontade de interagir com os estudantes brasileiros, o amor do imigrante pela comunicação me fez reconhecer que ele integrava nosso ciclo como aluno. A identificação de Alfredo com a profissão inspirou a minha e coloquei-me no lugar dele, tendo que abrir mão de tudo para se lançar a um futuro desconhecido: frustrações, saudades da família e melancolia por largar o que gosta. 

Talvez o mais frustrante seja traçar um planejamento de vida e preparar-se  para ela dentro do contexto vivido, mas a vida surpreende. Qual a garantia que daqui a 20 anos não sejamos nós a deixar tudo o que foi consolidado, e sejamos novos imigrantes a buscar condições ideais de vida? Com a voz embargada e um tom de indignação, Alfredo desabafa ao ser perguntado sobre a imigração: “.Nunca na minha vida eu pensei, eu acreditei que eu seria imigrante, que eu estaria assim pelo mundo e minha família espalhada por todos os lados, nunca imaginei, jamais acreditei, mas tem que ser  forte e acreditar em si mesmo e preparar-se.

Ao abordar o assunto família, Alfredo faz a seguinte declaração com a boca e as mãos trêmulas: ”Daqui a um ou dois anos, pretendo encontrar toda minha família unida em um Réveillon juntos, ou um dia, uma semana que seja, como era há três, quatro, 20 anos na Venezuela, era outra coisa… São três anos sem uma foto familiar, três anos que não se reúne toda família. ” 

Embora conviva com diversas dores e dificuldades, o imigrante venezuelano considera-se um sortudo em comparação aos outros na mesma situação: “Muitos estão sozinhos no mundo e não há nada mais; meu irmão está sozinho no Chile, não é que nem eu, que estou com minha mãe. Ele tem que lutar com isso, eu tenho muita sorte de aqui ter alguns. As pessoas deixam tudo para vir para cá. É muito difícil saber que fora tem outros países que te ajudam mais do que seu próprio país”.

Essa é a realidade de apenas um dos 3,4 milhões de venezuelanos ao redor do mundo. Os mesmos que presenciaram,  na década de 90, a ascensão do 4º maior PIB per capita do mundo e o melhor salário mínimo da América Latina, tiveram que tomar a decisão mais difícil de suas vidas nos últimos anos. Reconhecem que a Venezuela que deixaram não é mais a mesma. Em seu relato, Alfredo  expressa a decepção com a situação de seus país: “Nossos planos não eram vir para o Brasil, queríamos aguentar na Venezuela. É um país muito bonito, mas tem muita corrupção, muitas coisas. E pouco a pouco conseguia cada vez menos. Minha mãe é professora e seu salário é 100 dólares mensais para manter uma família, uma casa, estudos, comida, não dava.” 

Apesar do pouco tempo de adaptação, o jovem venezuelano enquadra-se, segundo as Nações Unidas, entre os 10% que adquiriram empregos formais no Brasil. Os outros 90% levam meses ou até anos para ter uma carteira de trabalho assinada. Junto com seus dois irmãos, Alfredo está trabalhando no setor de dispensa na rede de supermercados Angeloni do Santa Mônica, que nos últimos meses vem contratando alguns imigrantes venezuelanos. Mesmo não sendo o emprego dos sonhos, Alfredo reconhece que no momento é preciso fazer de tudo até que as condições melhorem e a situação  da família se estabilize.

Ao ser perguntado sobre suas pretensões para o futuro, o amor pela comunicação é o primeiro a ser expresso: “Primeiro é continuar minha carreira. Para mim é muito importante estudar, é algo que eu gosto pessoalmente. Preciso ter uma oportunidade, porém, como imigrante é difícil de entrar na faculdade, tanto pública como privada”. Por mais que a vida o tenha afastado daquilo que mais ama fazer, em momento algum pensa em abandonar a profissão que o fez encantar-se. O fascínio desse comunicador pelo jornalismo indica que cedo ou tarde ele vai estar de volta, exercendo o que mais sabe fazer. Aliás, como Alfredo escreveu no texto que leu durante uma das aulas de Língua Portuguesa na Pastoral da Prainha: “uma pessoa com ideias pode triunfar em qualquer lugar”.

Flavio Marcelino
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