Refugiados e imigrantes: Quem são eles?

Tem sido cada vez mais frequente o processo de migração em que pessoas carregam consigo apenas o que cabe nos braços, caminham quilômetros, dormem nas ruas e algumas vezes até arriscam suas vidas, movidas pela vontade de ter condições melhores de vida e outra perspectiva de futuro. Francisco é venezuelano e deixou seu país há dois anos, espera encontrar no Brasil uma perspectiva de vida mais tranquila. “Meu futuro vai depender se vou conseguir um trabalho. Voltar é complicado, é preferível lutar aqui e seguir adiante. É preciso ter fé, é preciso ter confiança, é preciso ter otimismo. As coisas são duras, não digo que são fáceis, mas é possível fazer. A minha ideia é me manter por muito tempo aqui no Brasil”, sustenta Francisco.

Francisco, de camiseta azul, veio como imigrante da Venezuela e quer se estabelecer no Brasil. Foto: Darlan Alves

Qualquer pessoa que se muda de um país para outro é considerada imigrante, a não ser que esteja fugindo de guerras ou de perseguição política ou religiosa. Imigrantes podem estar fugindo da pobreza ou estar buscando por melhores oportunidades, como é o caso de Francisco. O atual regime de asilo no Brasil não legitima a busca por refúgio daqueles que sofrem os efeitos da mudança climática. Atualmente, está em debate o reconhecimento de imigrantes que deixam suas casas para fugir dessas situações como refugiados. Mesmo que não sejam reconhecidos legalmente, muitas pessoas estão buscando refúgio das mudanças climáticas. E os números são altos.

Um país que reflete essa realidade é o Haiti. Atingido em 2010 por um terremoto de categoria 7, milhares de pessoas deixaram o país. Devido ao histórico de miséria, não havia chance de reestruturação no país. Hoje, as pessoas que não conseguiram sair do Haiti, vivem em condições de extrema pobreza.

Para o imigrante que deseja morar no Brasil sem a condição de refugiado, a Lei de Migração nº 13.445/2017 apresenta várias possibilidades de regularização migratória. Como exemplo, é possível solicitar visto de residência por reunião familiar para aqueles que se casam com brasileiros ou têm filhos brasileiros; ou para aqueles que vêm para o Brasil estudar, para tratamento de saúde, para trabalhar, e também através da acolhida humanitária. Além de se encaixar em algum desses requisitos, para conseguir o visto de moradia permanente é necessário fazer uma prova de Língua Portuguesa. O Certificado de Proficiência (Celpe-Bras) é conferido aos imigrantes com desempenho satisfatório. A prova é aplicada pelo Ministério da Educação e, no Brasil, é exigido pelas universidades para ingresso em cursos de graduação e em programas de pós-graduação. Essa prova é fundamental para que um imigrante possa nacionalizar um diploma. 

É o caso de Merlina, também venezuelana. No Brasil há três anos, tem formação de nível superior, mas enfrenta dificuldades de chancelar os documentos para validar a documentação. “Sou psicóloga e aqui no Brasil não consigo emprego sem a nacionalização do meu diploma. Além das taxas que tenho que pagar, preciso ser aprovada nesta prova de Língua Portuguesa, que é muito difícil pra mim.” 

A psicóloga Merlina não consegue validar seu diploma sem a aprovação na prova de Proficiência. Foto: Darlan Alves

Os que se classificam como refugiados são pessoas que deixam seus países para fugir da guerra, da perseguição religiosa ou política, e podem provar isso de alguma forma.  Com medo de ser “perseguida por motivos raciais, religiosos, de nacionalidade ou por fazer parte um grupo social ou ter determinada opinião política, não está disposta a se colocar sobre a proteção daquele país”, como garante a Convenção de Refugiados, definida após a Segunda Guerra Mundial. O Brasil já reconheceu mais de 10 mil refugiados. Na espera, o número é 15 vezes maior: mais de 150 mil pessoas aguardam resposta de seus processos. Metade é de venezuelanos.  

Para a solicitação de reconhecimento da condição de refugiado é necessário preencher um extenso formulário, disponível no site da Polícia Federal, que deve ser apresentado em postos do próprio Departamento da PF. A pessoa que se classifica como refugiada deve apresentar razões e provas para seu pedido. O prazo provável de espera é de pelo menos dois anos.

Uma “Operação de Acolhida” foi criada no Brasil em março de 2018, e está em curso para gerir o fluxo migratório de venezuelanos, incluindo documentação e abrigo. É coordenada pelo governo federal, por meio do Exército, com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Denis Duarte tem a função de promover a “interiorização” dos refugiados e imigrantes para as unidades de acolhimento. Ele explica que esse trabalho só é possível com apoio do governo e da sociedade civil. “Dentro da interiorização temos algumas modalidades. A que nós fazemos se chama Abrigo Amigo, onde a gente tem abrigos e parceiros em outros estados do Brasil, que podem acolher essas pessoas e os recebem para ajudar na melhoria de vida. A gente faz esse trabalho em parceria com a Organização Internacionais para as imigrações e com o Exército,” explica Dênis.

Santa Catarina é um dos estados que mais participa desta acolhida. No dia 04 de junho, um ônibus com 44 venezuelanos vindos de Boa Vista, capital de Roraima, desembarcou no Salão Paroquial de Barreiros, município de São José. Após um breve jantar, foram levados para as “Casas de Passagens”, oferecidas pela Cáritas, com apoio da igreja católica. Durante 4 meses os imigrantes receberão toda a estrutura necessária para recomeçar: cama, fogão, geladeira, auxílio alimentação e gás de cozinha. 

Uma das pessoas a desembarcar neste ônibus, Victor veio junto com a esposa com a perspectiva de conseguir permanência. “Na Venezuela, batalhei durante anos para ter uma boa vida com minha família. Da noite para o dia vi que meu dinheiro não valia mais nada, e devido a um governo incapaz, tive que deixar tudo para trás. Sou formado em Administração de Empresas e Ciências Contábeis, e até conseguir a validação dos meus diplomas, que já sei que não será fácil, não me importo em trabalhar num serviço braçal”. 

Victor (último da direita para esquerda) chegou a Florianópolis com  esposa e amigos. Está disposto a recomeçar graças à Operação de Acolhida, oferecida pelo ONU. Foto: Darlan Alves

Atualmente, um pouco mais de seis mil imigrantes vivem nos abrigos da operação, espalhados por Florianópolis, Boa Vista e em Pacaraima, cidades que também concentram venezuelanos. Tudo é realizado com participação de uma série de entidades da sociedade civil e organizações internacionais que participam da força-tarefa em Roraima. Cabe ainda à Operação de Acolhida gerenciar o processo de interiorização, que busca redistribuir de forma voluntária os venezuelanos para outras regiões do Brasil nas quais eles possam encontrar abrigo e melhores condições de obter trabalho. 

Vivência para um olhar sensível

Era dia 25 de fevereiro, meu primeiro dia de aula no Curso de Jornalismo da Unisul, quando os professores que eu havia acabado de conhecer, apresentaram o tema a ser abordado neste semestre: IMIGRAÇÃO. Lembro-me de ter dito: este tema é necessário. Descobri que faríamos uma vivência, que é uma maneira de aproximação, e com a frequência do contato com os imigrantes, seria possível mostrar o tema em perspectivas diferentes das mostradas na mídia tradicional, tendo como foco um olhar sensível.

Eis que após algumas pesquisas e aulas teóricas, ocorreu a primeira vivência na Pastoral do Migrante. Meus colegas e eu isolados dos imigrantes, vendo equipamentos audiovisuais sendo montados, e um semblante de interrogação no rosto de cada um que estava ali para participar da aula de português que iria começar naquele momento com a professora Natália. Não era esse o combinado para o primeiro encontro. Combinamos que o melhor era chegar lá e observar, e com a dinâmica de fazer as atividades junto com eles, pudéssemos assim nos integrar. Percebi que eles não gostaram das luzes e de todo o aparato, mas quando tudo foi desligado e sentamos junto a eles, parece que ocorreu uma grande mágica. 

Eu estava sentada numa mesa com Venezuelanos, quando, de repente, olhei para o lado, e vi a mesa com os haitianos, que eram os mais tímidos até então, sozinhos. Rapidamente, fui até a porta, onde estavam alguns dos meus professores, e alertei que aqueles haitianos estavam sozinhos. Imediatamente, o problema foi resolvido por um deles. Fiquei muito preocupada com a sensação que os haitianos teriam se ninguém fosse se integrar com eles. 

Minha conversa com os venezuelanos foi incrível, havia dois homens e duas mulheres, e todos eles estavam muito abertos a falar. Conversei bastante com a venezuelana Raquel, que praticamente me deu uma entrevista, ali mesmo, sem que eu pedisse. Foi uma conversa natural, senti que estava no caminho certo. Saí de lá radiante com o encontro e já pensando em como seria o segundo, para que no terceiro eu pudesse entrevistá-la.

Levamos a experiência para a sala de aula, e então senti, com o passar das semanas, que a chance de conseguir uma boa entrevista diminuíram. Fizemos pesquisas durante várias aulas, uma tentativa proposta pelo grupo de professores para que cada aluno formulasse perguntas sobre um assunto específico. Eu fiquei encarregada de fazer perguntas voltadas para a burocracia de imigração, mas, na prática, elas não foram usadas. O que eu desejava saber eram as principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes.

O segundo encontro foi em uma quarta-feira, estávamos cientes que a turma que estaria lá não era a mesma da primeira. Meus professores estavam preocupados com o prazo, e devido ao compromisso que os alunos já teriam com o SBT na segunda, acabamos indo na quarta, e a incerteza se eles iriam era constante em mim.

Teve professor que sugeriu fazer a entrevista neste dia mesmo, mas vi que se assim fosse, fugiríamos da proposta inicial em relação à sensibilidade. Tivemos algumas aulas e organizamos uma maneira melhor de chegar no segundo encontro. Decidimos escrever uma carta explicando o porquê estávamos ali. Proposta escrita, traduzida e apresentação ensaiada. Eu estava apreensiva, porém otimista, já que agora finalmente ia poder chegar lá e apresentar o nosso projeto.

Nossa primeira data para o segundo encontro teve que ser cancelada devido às manifestações que estavam ocorrendo em todo o país. Depois de alguns dias, uma nova data foi marcada. Levamos algumas comidas e bebidas para deixar o ambiente mais descontraído e feliz, isto realmente contribuiu bastante com a integração de todos. Nos apresentamos, falamos com eles, porém senti falta de Raquel, a venezuelana que conheci no primeiro encontro. Conversei com alguns haitianos que não estavam muito dispostos a falar, e sei que isso se deve mesmo a dificuldade da língua. Mesmo assim, consegui convidar um imigrante haitiano a vir no próximo encontro, e combinei de falarmos mais a respeito disso pelo Whatsapp, para que assim tudo estivesse acertado para a quarta-feira da entrevista. 

Não foi assim que aconteceu. As mensagens que ele me enviou logo após o encontro  me deixaram constrangida e eu não gostei. De maneira firme e educada, demonstrei que meu convite para uma entrevista se encerrava ali. No dia do terceiro encontro, tive medo de que ele viesse. Felizmente não o encontrei neste dia.

Consegui uma entrevistada de última hora, uma haitiana de 49 anos, chamada Orianie. Sentei com ela e conversamos um pouco, eu soube mais a respeito dela somente naquele dia. Me senti extremamente incomodada de lhe pedir uma entrevista, sendo que havia acabado de conhecê-la. Por isso, durante a entrevista, senti que estávamos muito distantes uma da outra, o que a impediu de falar mais sobre problemas ou dificuldades que enfrentou. Deu respostas vagas. Por conta disso, finalizei a entrevista um pouco frustrada com o resultado final, porém, tive a certeza que respeitei a entrevistada. Tudo isso faz parte do aprendizado. Agora, me resta a vontade de viver  novos desafios, com um olhar mais maduro.

Renata Bueno
Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s