Inversão de papéis: Os reflexos do estrangeiro que habita cada um

Na pequena sala da pastoral, cerca de vinte pessoas dispunham-se entre pouco mais de meia dúzia de mesas e cadeiras de plástico. Elas aguardavam pelo horário de início da aula. Dezenove horas. Algumas folhas de atividades começavam a ser distribuídas entre os alunos. Encaravam os pedaços de papel dispostos sobre as mesas, curiosos, sacando seus lápis e canetas. Prontamente, as lacunas em branco os fitavam de volta, em questionamento. Nomes, idades, profissões, endereços. Perguntas triviais que sutilmente transmutavam-se no exercício da língua banal e corriqueira.

As lacunas pediam que lhes contassem há quanto tempo haviam seus observadores decidido mover-se para abraçar a nova vida em terreno estranho. Talvez questionassem, na verdade, há quanto tempo essa nova vida em terreno estranho os abraçou – ou engolfou. No papel, a impressão apenas exibia objetivamente a pergunta: há quanto tempo você está no Brasil?

Os alunos enxergavam-se brevemente envolvidos por um misto de curiosidade e receio, que se acentuou tão logo deram nota de um inédito grupo de visitantes. Esse grupo atravessava as portas da pequena sala e passava a preenchê-la de abrupta e repentina maneira – mesmo que não fossem em maioria. Nem sempre é preciso estar em maioria para causar estardalhaço. Algumas vezes, sequer é necessário dizer palavra para isso.

Eram estudantes brasileiros em seus dezoito ou vinte anos. Alguns poderiam até aparentar menos. Não estavam em maioria e nem diziam palavra. Apenas limitavam-se a sentar em algumas cadeiras de plástico avulsas nos fundos da sala. Talvez tão apreensivos e irrequietos quanto todos aqueles que já estavam no local, embora ninguém que não os conhecesse ou soubesse o que exatamente estavam fazendo, pudesse afirmar isso. Bastava que meia dúzia de palavras fossem trocadas, no entanto, e logo tornava-se perceptível que pouco ou quase nada sabiam sobre o que viria a acontecer logo em seguida. 

Eram estudantes de jornalismo, primeira fase, zero experiência com entrevista. Três parcos meses de aula. Inexperientes em diálogo e aproximação. Problema esse que – pasmem! – se estende para além das turmas de comunicação e redações de jornal. Estende-se para as dimensões pessoais de cada um. Um desaprendizado progressivo a respeito de comunicar-se. Talvez nada disso tenha sido, de fato, aprendido algum dia. Talvez sequer tenhamos nos dado conta da necessidade de aprender. Incomunicáveis, na comunicação. Um paradoxo um tanto intrigante. Felizmente, transponível. 

Éramos estranhos no ninho. Estranhos, não obstante, dotados de garantias veladas que encorajam o ir e vir – talvez nem tão veladas assim. A garantia de ser e estar em casa, de saber por onde rumar, de saber por onde recuar. Naquela noite, éramos prováveis e imagináveis donos do pedaço, com um quê de forasteiros. Diga-me você a proporção de cada um desses dois atributos. 

Do outro lado, imigrantes. Imigrantes, estudantes, com suas lacunas ainda por preencher. Gente de toda idade e de toda sorte. Gente que buscava aprender, gente que buscava trabalhar, gente que buscava viver. Gente que buscava apagar ou recordar – para, no fim do dia, seguir adiante. Gente que buscava gente. Gente. 

Alguns vinham do Haiti, outros da Venezuela, alguns poucos do Peru. Alguns haviam chegado há meses, alguns há anos. Outros, não se sabe. A lacuna permanecia não preenchida, pois a aula ainda não havia começado.

Dispunham-se entre expressões retraídas, semblantes encabulados, olhares, cabisbaixos – quase como se tivessem medo de ir ao encontro dos nossos. Os mais extrovertidos se aventuravam a fazer piadas despojadamente. Alguns riam e concordavam, outros riam sem saber por que riam. Havia ainda os que apenas se limitavam a observar. Do francês ao crioulo, do espanhol ao português, as manifestações de pluralidade se tornaram capazes de imperar em coexistência no pequeno recinto. 

Eram histórias e recordações diferentes à medida que se entrecruzavam no receio em face do desconhecido. À medida que partiam em busca da garantia de aprender a apanhar o ônibus certo sem gaguejar ou solicitar direções sem acabar se perdendo em meio à pergunta. Assim eram as aulas de português da professora Natália – uma moça jovem, cheia de vida e disposição: tão calorosas e cheias de vigor quanto ela. 

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Natália é professora de português da Pastoral do Migrante. Com vigor e entusiasmo, auxilia seus alunos no aprendizado do idioma. Foto: Darlan Alves

Os encontros, oferecidos pela Pastoral do Migrante, em uma modesta igreja localizada na Prainha, abrigam novos rostos toda semana. Vários são os frequentadores assíduos. Apesar disso, os marinheiros de primeira viagem despontam aos montes. Todos eles tentam a sorte grande ao transpor as dificuldades da língua, uma constante e intrigante desconhecida – essa que, mesmo tão perto, faz tudo parecer tão longe. 

Sentados junto a eles, auxiliamo-los a preencher as lacunas de seus exercícios. Uma vez completas e aliadas a seus companheiros, os enunciados, sugeriam que os observadores passassem, então, a repetir as perguntas àqueles em seu entorno, simulando pequenos diálogos. Nem sempre compreendíamos uns aos outros. Imersa em meio a conversas entusiasmadas, proferidas em francês e crioulo, eu já não era mais capaz de entender uma única palavra. Por vezes, era até capaz de entender como os peixes fora d’água deveriam se sentir. Quando a sensação do outro passou a ser, em menor escala, também a minha. Então eu já não era mais a dona do pedaço e o meu quê de forasteira, de uma hora para a outra, tornava-se aparente. 

Em um dos desafios propostos pela professora, novas folhas brancas passaram a circular pela sala de aula requisitando que cada aluno listasse algumas de suas qualidades e atributos. Com alguns apertos, consegui mostrar a um dos integrantes do grupo, de que maneira essa ideia poderia ser construída. Com esforço, um dos haitianos presentes no grupo, Alexis, formulou a frase: eu sou um bom cozinheiro. 

Dali em diante, falou-se da vida, do sonho, do gosto, da aspiração. Não com todas as letras. A comunicação não era das melhores e a incompreensão podia ser facilmente confundida com um bicho de sete cabeças. Dentro das limitações de cada um, fizemo-nos presentes e falantes. Quebrou-se o ruído ambíguo do silêncio. Pusemo-nos a completar as atividades e exercitamos a possibilidade de ser quem conseguíssemos. As folhinhas permaneciam lá: sobre a mesa, pacientemente esperando para que fossem preenchidas.

O correr do momento tratou de acomodar o ninho de tal maneira, que deu conta de abarcar a todos, sem tempo ou espaço para designar estranhos. Apesar da desorientação e do equívoco, apesar de emoção aflorada ou jogada para baixo do tapete. A noite que tinha tudo para ter um resultado aquém do satisfatório, terminou em boas memórias. Nem um sucesso absoluto, nem um fracasso total. Uma experiência. Um aprendizado. Um gigantesco mosaico de trocas. Humano, honesto, espontâneo. No fim daquela noite, algumas lacunas a mais já não se encontravam em branco.

A menina do sorriso colorido

O sorriso, apesar de constrangido, emanava algo de afetuoso. Compreendia e compactuava com as incertezas postadas em cada um. Dizia saber das coisas que se mantêm ocultas, por debaixo dos panos. Logo atrás dos muros de nós mesmos.

Jeito de menina, apesar dos dezoito anos. Doçura e acolhimento, apesar da timidez. Olhos escuros, que falavam muito, sem nada precisar dizer. Eles resplandeciam em fachos de luz que, após uma fração de segundo, cediam lugar ao peso daquilo que carregavam consigo. Contavam sobre a escola, a igreja, a música, a vida nova. Recusavam-se efusivamente a falar da vida que ficou. Entendíamos o recado e silenciávamos. Daí partíamos para o próximo tópico. A expressão falava por si mesma. Logo do outro lado da pequena mesa de plástico, sentava-se Daana, a menina do sorriso colorido.

Em seus poucos quatro meses no Brasil, a menina não era ainda íntima da língua. Despendia um grande esforço no intento de expressar-se. Em um de nossos encontros, ela concordou em ceder-nos uma entrevista. Vacilante, postou-se em frente às câmeras e luzes. Também vacilante, postei-me a sua frente. Sem vacilar, entregamo-nos ao diálogo que ali se permitiu construir. 

Em conversas anteriores, havíamos descoberto que Daana gosta de música. Enxerga nela um canal de sentimento e de fé.  A música é válvula de escape para quando se vê triste pensando em sua mãe, que não vive no Brasil. Recentemente, as duas tiveram a oportunidade de se reencontrar, após dois anos a distância. 

Daana diz gostar de música gospel e de “chansonnettes” – ou, “músicas de amor”, como nos explicou, logo em seguida. Então, ao final de nossa conversa, ela cantou. E foi assim que, entre uma série de versos melódicos, foi capaz de contar-nos sobre si. Sobre as alegrias e as tristezas e as crenças que carrega consigo. Todos eles tecem um pedacinho da colcha de retalhos de sua história. 

Afinal, todos têm uma história. Nem todos anseiam em contá-la e nem todos anseiam por ouvi-la. Mas algumas vezes ela se escreve, sutilmente, nas entrelinhas das palavras que não são ditas – talvez, cantaroladas. No olhar, no gesto, na leveza. Eu continuava sem saber falar francês, assim como Daana, que pouco sabia do português. Naquela noite, no entanto, nós encontramos um caminho para entender uma à outra.

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Daana, a menina do sorriso colorido, tem apenas dezoito anos e vive com sua tia no Brasil há cerca de quatro meses. Fotos: Yemina Souza

Um relato sobre as coisas que não são ditas

Ainda na primeira semana de aula, quando a proposta de trabalhar com imigrantes e refugiados surgiu, um sentimento de incerteza postou-se prontamente junto a mim. Imaginava que, ao cair de paraquedas logo na primeira fase do curso, apenas escreveria alguns textos, leria tantos outros e adentraria unicamente no campo da teoria. Não demorou muito para que eu percebesse estar errada.

Tive receio de não dar conta do recado, não nego. Mas admito também: o sentimento de incerteza e o hábito de uma autocobrança excessiva e destrutiva não eram exclusivos daquele momento. Eram posturas recorrentes e eu percebia que chegava o momento de enfrentá-las. Ainda que o medo pudesse parecer paralisante, algumas vezes, era exatamente a dose de coragem de que eu precisava para seguir adiante.      

Desde o início, havíamos sido avisados pelos professores a respeito da sensibilidade necessária para mergulhar em um projeto como esse. Afinal de contas, apesar do fato de que estaríamos lidando com histórias, antes de tudo, tratava-se de pessoas. Ainda que estivéssemos construindo uma experiência jornalística, antes de tudo, construíamos uma experiência humana.

Dali em diante, as aulas passaram a ser um gigantesco e incessante inventário de dicas: como se portar, como agir, como falar e, definitivamente, como não proceder; orientações e avisos de toda a sorte. Muitas informações novas de uma só vez. Apesar de todas elas, a cada semana eu apenas me perguntava mais e mais: como raios eu irei fazer essa entrevista?        

Após semanas de pesquisa árdua ao redor das temáticas migratórias, percebi-me amarrada a uma espécie de paradoxo. Ao mesmo tempo em que me sentia mais próxima e imersa no assunto, mais distante me sentia ao dar-me conta, por fim, da dimensão de suas questões.

Por mais que, então, soubesse que cerca de 40 mil imigrantes tinham solicitado refúgio no Brasil até o ano anterior, a grande verdade é que eu não fazia ideia de como me dirigir a um único. Por mais que tivesse estudado cada detalhe – desde uma infinidade de números, datas, gráficos e estatísticas, até notícias que permeavam o contexto social; mergulhado de cabeça em dezenas de artigos e ensaios, ido atrás de fontes diversas; analisado características referentes a cada fluxo migratório: os perfis envolvidos, as problemáticas enfrentadas, as rotas comumente utilizadas –, eu não fazia ideia de por onde começar a traçar os meus próprios caminhos.

A ideia de encarar alguém com uma história tão rica e tão real e, afinal de contas, tão humana – assim como cada um de nós – e acabar tratando-a, acidentalmente, como uma espécie de experiência laboratorial, perturbava-me profundamente. Não saber escolher as palavras certas, não saber colocar as palavras certas, talvez sequer possuí-las. Talvez ninguém nunca as tenha, de fato. No entanto, era preciso tentar.

Inundava-me o receio de tornar os relatos ouvidos em um produto descartável. De não ser capaz de extrair sua singularidade e figurar-me como uma ouvinte desinteressada e despretensiosa. Pior: de transformar o contato direto em algo superficial, beirando o agressivo. Eu pressiono, enquanto você me oferece uma história. Pergunta, resposta, pergunta, resposta. Protocolos, formalidades, trivialidades. Nada além disso.

Rapidamente, o semestre passou a correr, trazendo consigo os exaustivamente discutidos encontros – ou vivências, como assim haviam sido denominadas previamente. Muitos debates acerca das metodologias e critérios que viriam a ser utilizados permearam esse processo e, após inúmeros encontros e desencontros, enfim chegava a hora de ir a campo.

Uma sequência de dois encontros antecedeu a noite de gravações, propriamente. Ainda hoje, depois de vivenciadas, refletidas e, a grosso modo, digeridas, vejo-me em posição de certa dificuldade para descrevê-las. Não porque tenham sido ruins, – muito pelo contrário, foram experiências enriquecedoras –, mas porque foram impactantes – e tudo que impacta, tem seu quê de dificuldade para ser descrito.

O primeiro encontro foi provavelmente o mais tenso dentre todos eles. Tratava-se de uma aula de português, onde havia presentes imigrantes haitianos, venezuelanos e peruanos. E, naquela noite, especialmente, estudantes brasileiros invadiam o recinto, juntando-se aos demais.  Todos um tanto acanhados e receosos, acometidos pela insegurança do que estava por vir. Reconhecendo o terreno, assegurando-se dos próximos passos.

Sentamos em grupos, junto aos alunos de diferentes nacionalidades. Fruto de um acaso ou não, eu e minha colega acabamos por nos ver frente a frente com um desafio assustador: o grande obstáculo naquela noite era a comunicação. Sem quaisquer domínios da língua, juntamo-nos a um grupo de haitianos. Eles, munidos com o francês e o crioulo (língua nativa), nós, apenas com o português à mão.

Assim, discorreu-se uma noite onde, por vezes, compreendemos de maneira muito próxima, a sensação de não conseguir se fazer entender em um meio onde a cultura predominante é a do outro. Em variados momentos, não entendíamos uma única palavra das falas que os imigrantes do grupo trocavam entre si. Por vezes, parecia até que achavam graça em nossos falhos esforços de estabelecer algum diálogo. Fosse ao elaborar frases curtas de pronúncia duvidosa como “je m’appelle Luiza” ou, simplesmente, ao esboçar quaisquer mímicas e gestos que me ocorressem, tentava persistentemente construir um canal de compreensão.

Apesar dos desencontros, muitas coisas bonitas nasceram de lugares inesperados. Lembro-me nitidamente de um exemplo. Assim que nos aproximamos daquele grupo de haitianos sentados ao redor da mesa de plástico, com seus lápis e folhas de atividades a preencher, logo reparei semblantes mais ou menos similares entre si: expressões retraídas, falas acanhadas, olhares cabisbaixos – quase como se tivessem medo de ir ao encontro dos nossos. Admito que talvez eu não estivesse tão diferente.

Até hoje não tenho muita certeza se eles entenderam, de fato, tudo o que eu disse ao me apresentar.  Cada um deles tinha um tempo de estada diferente aqui em Florianópolis. Alguns, inclusive, estavam frequentando sua primeira aula de português ali na pastoral, bem naquela noite. Para ser sincera, não sei sequer se estavam dispostos a me entender e, nesse caso, também os compreendo perfeitamente. Imagine: lá estavam eles para assistir sua aula semanal, com a única pretensão de tentar aprender um pouco mais desse idioma tão confuso que é o português. Então, sem grandes avisos, surge um grupo de adolescentes curiosos a interpelá-los, cheios de indagações e questionamentos e sabe-se lá o que mais querem. Apesar de tudo isso, decidi que precisava tentar.

Prontamente, expliquei que eu era ainda uma estudante de jornalismo de primeira fase e que, de certa forma, assim como eles, também estava fazendo algo novo pela primeira vez. Admiti em alto e bom tom: eu estava nervosa. Apesar das tensões de ambos os lados, lembrei-os que aquele era apenas um momento de conhecermos uns aos outros, de trocarmos experiências. Logo em seguida, tratei de repetir essa nota mental também a mim mesma.

Assim que terminei de dizer isso, uma das meninas do grupo levantou rapidamente o olhar – aquele olhar passageiro e fugitivo de que havia me dado conta antes –, e estendeu-me um sorriso. Acanhado, porém sincero. E foi ali que eu entendi, mais do que nunca, a necessidade de se fazer empático. De colocar-se acessível e humano e tão cheio de inseguranças quanto quem nos acompanhava naquele momento. Quando disse aquilo, não apenas tirei um peso de minhas costas, quanto fui capaz de estender uma ponte em direção àqueles que estivessem dispostos a atravessá-la, passo a passo, junto comigo.

Depois da primeira noite, acabamos não vendo novamente vários dos presentes, bem como no segundo encontro, no qual conversamos com alguns rostos novos que não viríamos a encontrar mais. Logo, o terceiro e fatídico encontro se aproximou: a noite das gravações. No fim das contas, não houve nada de tão fatídico assim. Apesar do misto de receio e insegurança que me acometia, foi um momento de trocas e experiências, assim como os anteriores. Conseguimos, de certa forma, transformar a crueza existente ao redor das luzes e câmeras em uma atmosfera de respeito e acolhimento.

Daana, a menina do sorriso colorido e luminoso da primeira noite, passou a acompanhar-nos de perto, tanto pelas redes sociais, quanto pessoalmente. Assim, na noite das gravações, lá estava ela. Apesar de um tanto relutante em relação a nos conceder uma entrevista, por conta de sua timidez, deixamos claro que não tínhamos intenção de pressioná-la, estávamos felizes apenas com sua presença ali. O resultado da noite foi, no fim das contas, indiscutivelmente lindo.

Ainda que a menina tivesse uma boa compreensão do português, já em seus poucos quatro meses no Brasil, essa facilidade não se estendia para a fala. Por conta disso, ela desenrolou suas respostas em francês e, com o auxílio de traduções, conseguimos dar vida e continuidade à entrevista. Mesmo com o máximo esforço envolvido, eu apenas conseguia entender umas poucas frases soltas do que ela dizia. Fazia questão de estender o meu sorriso mais empolgado quando conseguia compreender alguma de suas falas sem recorrer à tradução, para que ficasse claro o quanto ouvi-la, mesmo com todas as adversidades, estava sendo importante para mim.

Apesar do coração ligeiramente acelerado em alguns momentos, tentei aparentar calma e tranquilidade a cada pergunta feita. No fim das contas, tratou-se de uma grande conversa, cheia de doação e receptividade – cada uma de nós explorando seus próprios limites. Por fim, eu já nem lembrava mais da existência do nervosismo.

Em todo esse processo, apesar de reconhecer a conversa e o diálogo direto como um instrumento muito prático e poderoso, passei a dar-me conta daquilo que se escondia sorrateiramente nas entrelinhas. Escondia-se e era capaz de construir diálogos tão ou mais intensos do que os convencionais. Do primeiro encontro até a entrevista, precisei apropriar-me dessa percepção, na ausência da clareza da língua e do aconchego da compreensão. Sorrisos, olhares, pequenos gestos – e a cereja do bolo: canções.              

A moça do sorriso luminoso, para nossa surpresa, tinha também uma voz melodiosa e cheia de vida. Os registros permanecem e guardam o momento em sua inteireza – no audiovisual, na memória.  Ela fechou nossa entrevista cantando o trecho de uma música, com certa emoção e entrega que a objetividade não dá conta de abarcar, assim como nem todo mundo dá conta de perceber. Notei-as ali, escondidas no que se mostra e, logo em seguida, retrai-se. Escondidas naquilo que se escancarou aos olhos e, no entanto, nunca foi dito.

Luiza Laux
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