A professora-aprendiz, com experiência e sem diploma

Em uma pequena sala de aula de Língua Portuguesa para Imigrantes na Paróquia da Prainha, em Florianópolis, mesas e cadeiras abrigavam pessoas cujas trajetórias foram prejudicadas por impasses econômicos, geológicos e sociais. Nesse cenário, uma jovem senhora venezuelana contagiava o grupo de alunos com seu carisma. Foi ela, Ingrid Villanueva, quem se dispôs a abrir o coração e contar um pouco de sua história que representa também a saga de milhares de venezuelanos migrantes  em busca de um recomeço no Brasil.

Residindo no Brasil com a família há sete meses, Ingrid frequenta as aulas de português na Pastoral do Migrante com a professora voluntária Natália Zardo e outras assistentes também voluntárias. Os familiares, que já estão aqui há mais tempo, exercitam o idioma dentro de casa a fim de facilitar os diálogos externos.Eu sei ler o português, tu falas, eu entendo, mas na hora de falar eu travo , diz a venezuelana sobre os empecilhos da língua. 

Apresentando mais bagagem educacional que grande parte dos brasileiros, ela possui títulos de auxiliar de pré-escolar, maestra de aula, licenciatura em matemática e uma pós-graduação na Universidade Católica Andrés Bello.  A fim de saber como poderia aproveitar seus conhecimentos e experiências no Brasil, procurou o Ministério da Educação brasileiro. Responderam a ela que teria que passar por um processo de nacionalização cujo custo é alto. “Custa um tanto de dinheiro que eu não tenho”, diz ela após revelar estar sendo mantida por seus filhos.

O processo de nacionalização de diplomas estrangeiros prevê que a documentação obtida no exterior possa ter representatividade no Brasil. Os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras serão revalidados por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área ou equivalente, respeitando-se os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação. Conforme a lei, os diplomas de pós-graduação serão reconhecidos por universidades públicas e particulares que possuam cursos reconhecidos e avaliados, na mesma área de conhecimento e em nível equivalente ou superior. 

Para o êxito do processo de validação são necessários muitos documentos, como requerimento dirigido ao reitor da instituição que vai reconhecer o título, diploma estrangeiro a ser legitimado, histórico acadêmico do curso, documentos pessoais, entre outros. Os custos oscilam de uma  instituição para outra e podem variar de R$ 500 a R$ 3 mil. Além disso, é essencial providenciar tradução juramentada, feita por profissionais concursados e especializados em traduzir de forma fiel, com a finalidade de comprovar a autenticidade dos papéis, visto que a legislação brasileira não aceita documentação em outros idiomas. Os custos desse procedimento vai de R$ 35,00 a  R$ 73,00 por lauda.

Alguns venezuelanos procuram o Celpe-Bras (Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros), uma vez que o documento é aceito por empresas e instituições de ensino como comprovação de competência na língua portuguesa, de modo a facilitar a conquista de uma vaga de emprego.

Com toda a política de nacionalização para imigrantes no Brasil, aos 58 anos Ingrid não é capaz de arrumar emprego mesmo sem ter preferências quanto ao nível. Afinal, para que possa lecionar, a professora precisa comprovar suas certificações. A venezuelana diz que cogita trabalhar em outras áreas, mas isso se torna um empecilho por conta de uma deficiência que atinge seu braço.

Com a experiência de quem atuou durante  38 anos na área da educação, ela conta que quando deixou seu país natal era diretora de uma instituição pública. Sente tristeza por ter abandonado o cargo. “Foram muitos anos trabalhando com educação e com todo um público com o qual construí amizades bonitas”, lembra a venezuelana, com os olhos marejados.

Ao ser questionada sobre seus sonhos, ela diz: quero que minha família tenha boas condições psicológicas e sociais”. Por ter sido sempre muito próxima dos filhos, deixa claro que seu  objetivo é estar onde eles estiverem, não importam as circunstâncias.

“Do que eu sinto mais falta? Da minha gente…” , responde ao ser questionada sobre seus sentimentos afetivos pelas pessoas que  deixou para trás. Ingrid acredita que não voltará à Venezuela tão cedo, pois na sua opinião a situação política e econômica do seu país vai demorar para se restabelecer e não quer reviver, de modo algum, os momentos de crise que enfrentou no passado.

Emanuela Lima
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