Não são apenas números

Desde o início, a vivência nos trouxe uma série de sentimentos: a começar pela insegurança (que inclusive rondou nosso projeto em vários momentos e por diversos fatores), passando pelo medo de não ser interpretado da maneira correta e de algo não sair como o planejado, a euforia de fazer o primeiro trabalho acadêmico, etc. 

Quando tivemos o primeiro contato com nossos protagonistas na Pastoral do Migrante, ainda não nos sentíamos preparados para fazer uma entrevista de tamanha responsabilidade, e este foi um sentimento geral até que tudo terminasse. 

Somente de 2010 a 2015, a diferença no número de imigrantes que chegaram a nosso país foi de 966 solicitações no primeiro registro, para 28.670 no último. Um aumento de 2.868%. Porém não era pelos números que estávamos indo ao encontro dos imigrantes, queríamos conhecer histórias de vida e relatos marcantes. Com este aumento drástico na chegada de imigrantes no Brasil, histórias de perseverança e de superação tem se tornado cada vez mais comuns. Ingrid, uma senhora de aproximadamente 60 anos, muito meiga e gentil e que desde o início foi muito receptiva com todos, foi a pessoa que entrevistamos. Ingrid é venezuelana e saiu de seu país de origem em função da crise que se instaurou por lá. Ela veio para o Brasil pois aqui já estavam morando alguns familiares seus e isso facilitou a adaptação.                                                                                

Desde o primeiro encontro, Ingrid estava lá presente na Pastoral, com um sorriso no rosto e um brilho no olhar, sempre disposta a compartilhar conosco histórias de sua vida. Na primeira ida à pastoral, a apreensão tomou conta do encontro e apenas o tempo foi capaz de nos dar coragem para superar este medo. Nos sentamos ao lado das pessoas que lá estavam e fizemos algumas atividades simples propostas pela Natália que é a professora voluntária de português. A atividade consistia em escrever em uma folha, respostas para perguntas como nome, idade, quanto tempo reside no Brasil, nacionalidade, etc. O clima de desconfiança que rondou os primeiros minutos da nossa vivência, aos poucos foi sendo substituído pela euforia e pelo desejo de conhecer o outro. Algumas semanas após nossa primeira experiência com os imigrantes, tivemos um segundo encontro, porém muitas das pessoas que compareceram no primeiro dia, nesse segundo não apareceram na Pastoral do Migrante. 

Foi neste segundo encontro que conheci o Walter, um haitiano muito simpático, falante, e com quem, consequentemente tive uma boa conversa. Segundo estimativas do ministério da Justiça, mais de 50 mil haitianos moram no Brasil, e em torno de 50% deles acabam sendo forçados a aceitarem  o trabalho informal, como o de pedreiro, por exemplo. Valter faz parte desses 50% e trabalha sem carteira assinada em um hotel em Jurerê Internacional. Também falou que acha o povo brasileiro muito acolhedor e caloroso (inclusive este foi um sentimento que percebi muito dos imigrantes). Valter tem 32 anos, é casado e tem três filhos. Pela tela do celular ele me mostrou fotos dos 3 filhos, que pelo seu olhar, lhe dão muito orgulho. Eles tem 7,9 e 12 anos. 

Valter conheceu Ingrid na Pastoral e os dois se tornaram grandes amigos, o que me causou uma grande dúvida: com quem seria minha entrevista?. Depois de conversar com minha dupla, Emanuela, resolvemos que nossa entrevista então, seria com a Ingrid. Na quarta feira decisiva, estávamos muito apreensivos e nervosos com o fato de que a Ingrid podia também não aparecer na Pastoral, e assim iríamos mais uma vez perder contato. Quando a vimos chegando, já fomos de imediato recepcioná-la. 

Na entrevista, Ingrid nos falou que trabalhou muito tempo como coordenadora de uma escola, e que aqui no Brasil a revalidação do seu diploma era inviável pelo valor e dificuldade do processo. Ela se demonstrou muito emocionada na entrevista e animada ao mesmo tempo. Nos falou muito sobre sua família no Brasil e falou que sente falta da outra parte que ficou na Venezuela. Ao final da entrevista o sentimento foi de alívio e gratidão por ter obtido êxito no projeto, e que mesmo com alguns imprevistos, no final tudo deu muito certo. 

Com relação ao aprendizado, acho que foi uma experiência muito válida, pois presenciamos um pouco mais das histórias de vida dessas pessoas que muitas vezes são esquecidas. 

João Pedro Bianchi
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