Identidade invisível

No dia  29 de abril de 2019, uma segunda-feira, fomos à Pastoral do migrante, localizada no centro de Florianópolis, a fim de conhecer as pessoas com quem faríamos futuras entrevistas. Ao chegarmos no local, não estavam todos lá, sendo assim, sentamos e aguardamos. Aos poucos, a pequena sala encheu de uma diversidade de pessoas e dialetos, o que nos trouxe um mix de curiosidade e euforia. Para que pudéssemos criar uma aproximação com os estrangeiros, Natália, a professora de português da Pastoral, sugeriu que fôssemos a uma das mesas e respondêssemos a um questionário juntamente com os imigrantes. O questionário trazia perguntas simples como: o nome, local de nascimento, idade, sonhos… o que facilitou para criar os primeiros vínculos. 

Eu estava nervosa, de certa forma, já que falo muito pouco o idioma espanhol e estava ao lado de peruanas e venezuelanos. Apesar disso, a comunicação ocorreu de forma natural e demos início à conversa. Primordialmente conversei com duas peruanas, Melinda (62) e Rosário (21), respondemos às questões propostas e tentei prosseguir com um diálogo sobre sua situação no Brasil. Senti que as duas não estavam tão abertas a uma possível gravação, então respeitei seus espaços.

Minha dupla, João Pedro, conversava com venezuelanos, Francisco e Ingrid. Foi quando decidi apresentar-me a eles e continuei um diálogo junto com meu amigo João. Francisco, um homem de 43 anos de idade, contou que deixou filhos na Venezuela e que está gostando muito de sua vida no Brasil. 

Ingrid, uma mulher de pele morena e olhos negros, mostrou grande anseio de aprender a língua portuguesa. Com sua doçura, relatou para nós que seu sonho é que sua família tenha boa condição psicológica e social. Em Ingrid senti uma abertura maior para gravações futuras, mas de qualquer forma, não comentei nada  com ela sobre isso.

Nosso segundo encontro foi acontecer dia 22/05/2019, quase um mês depois. Decidimos fazer uma abordagem mais explicativa, buscando detalhar o que aconteceria nesse encontro e no próximo, com o intuito de convencê-los a nos dar depoimentos que pudéssemos filmar para gerar um material audiovisual. Confesso que estava um pouco tensa, já que não sabia quem estaria nesse encontro. Foi feito um convite através da professora Raquel, que os convidou para participar de uma aula, onde conversaríamos e levaríamos um lanche para compartilharmos. 

Cheguei nesse segundo encontro atrasada, era uma quarta-feira, um dia em que não eram feitas as aulas de português. Dos que estavam lá, encontrei Ingrid, a senhora doce e extrovertida que eu tanto queria entrevistar. Logo de início, fui cumprimentá-la para que ela se sentisse confortável com a minha presença. Perguntei se lembrava de mim e como estava a vida no Brasil, a resposta foi ótima, respondeu que lembrava sim de mim e que estava vivendo bem. Após explicarmos a proposta do encontro, sentei ao lado dela e mostrei interesse sobre sua história de vida. Ela apresentou o filho que tinha recém chegado ao Brasil, o menino Alfredo, de 26 anos, que contou que fez 4 semestres de jornalismo em seu país de origem e que queria muito ter continuado com os estudos, mas que a situação do país o forçou a migrar para o Brasil. Após um bate papo casual, senti que Ingrid estava confortável para falar de forma mais profunda sobre sua vida, então perguntei se podia ligar o gravador para registrar o que estávamos conversando. A resposta foi simples e clara “Sim, não há problema”.

Com uma certa habilidade de se comunicar, Ingrid falou sobre seu país, que gerou assuntos sobre os empregos no Brasil, e a dificuldade em conseguir um. Comentou sobre suas especializações, seus anos de trabalho e suas experiências como professora, trazendo a tona as dificuldades de legitimar um diploma estrangeiro no Brasil, já que o processo de revalidação de diplomas de graduação deve ser feito por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área, ou equivalente, respeitando os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação (segundo o Art. 48, § 2º, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.394, de 20/12/1996), e o reconhecimento dos diplomas de pós graduação deve ser feito por universidades públicas e particulares que possuam cursos de pós-graduação reconhecidos e avaliados. Além disso, é necessário muitos documentos, muitas vezes de difícil acesso, e o custo é alto, podendo variar de 500 a  3 mil reais. Ingrid comenta “custa um tanto de dinheiro que eu não tenho”, dessa forma dificultando a procura de emprego, pois, não há como contratá-la na área da educação, se a mesma não possui um diploma válido no Brasil.

Em meio a isso, Ingrid emociona-se ao lembrar de seu emprego e das amizades que deixou na Venezuela. Diz que por ter tido muitos anos na área da educação, acabou conhecendo pessoas muito especiais que, infelizmente, teve que deixar para trás. Perguntei a ela se havia a possibilidade de retornar na próxima quarta-feira, e se aceitaria que gravássemos seu depoimento. Falei que devia falar apenas o que fosse de seu conforto e que eu não seria invasiva em momento algum. Sendo assim, Ingrid aceitou e fui embora com um grande alívio, pois, eu e João já tínhamos nossa entrevistada.

Enfim, chegou o terceiro encontro, onde tudo o que foi planejado seria colocado em prática. Eu estava muito nervosa, minha tensão era evidente, já que quando cheguei ao local da entrevista Ingrid não estava e havia a possibilidade de ela não chegar.

Depois de alguns minutos, Ingrid estava presente, conversei com ela, perguntei se sentia-se confortável com a ideia das câmeras e se estava disposta a nos dar essa oportunidade de entrevistá-la, além disso, expliquei mais uma vez como as coisas seriam feitas, que nada seria feito de forma “invasiva”. A resposta foi “sim, quando você quiser!”. 

Fomos o segundo grupo a gravar a entrevista, eu seria quem iria entrevistá-la, e João dirigiria. Sendo assim, um microfone foi posicionado na blusa de Ingrid e a câmera principal direcionou-se ao seu rosto. Obviamente eu tinha uma pauta, havia perguntas em um bloquinho que eu levei e, felizmente, não precisei recorrer a elas e perguntar exatamente o que estava no papel. A professora começou revelando sua idade, seu número de filhos, de netos e sua profissão: professora de matemática, como disse ela “matemática é igual em todo o mundo, mas aprender o português é complicado”.

A venezuelana deu um lindo depoimento, emocionou-se ao contar que sentia falta das pessoas com quem havia criado vínculos na Venezuela, e que a vida aqui era difícil, por mais que fosse melhor, se comparada ao que estavam vivendo no país de origem. Após 8 minutos de gravação, encerramos. Agradeci a ela pela sinceridade de suas palavras e por ter aceitado gravar conosco. Foi realmente muito importante para nós. Sendo assim, encerramos nossa entrevista muito gratos a Ingrid e felizes com o resultado, pois apesar dos empecilhos, tudo acabou bem e atingimos nossos objetivos primordiais. 

Emanuela Lima
Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s