Uma gota de vida

Quando o traficante perguntou por que não estava ajoelhado rezando o terço pelo filho à beira da morte em vez de buscar droga, Paulo soube: era o momento de pedir ajuda

Por Isabella Cúnico Lopes

Diz a sabedoria popular que é preciso um homem forte para ser pai, e um ainda mais forte para ser pai em processo de luto. Paulo teve três filhos: César Augusto, que reencontrou dias antes de nossa entrevista, após vinte anos sem contato; Thiago Rodrigo da Silva, seu sobrinho, filho de coração, que faleceu em decorrência de um acidente de moto, e Gustavo, que morreu de câncer quando ia completar doze anos de idade. “Minha vida é feita de perdas”, afirma com profunda tristeza. Além de órfão dos filhos, ele ficou órfão dos pais, cuja dependência alcoólica os levou à morte.

Por muito tempo, Paulo viu a droga como algo que pudesse aliviar sua dor. O efeito da substância poderia, ao menos, ajudá-lo a esquecer por alguns segundos que tudo estava desabando. “Eu não aceitava essas mortes, desconfiava de Deus. Tive princípio de depressão, quebrei a casa toda, taquei fogo, tentei me matar. Dali em diante, foram só desilusões”. Seu histórico com as drogas é longo: começou aos 11 anos, quando provou baseado pela primeira vez, e partiu em seguida para a cocaína e o álcool. “Na vida tudo era bom, tudo era festa”, conta, referindo-se ao princípio da adicção. “Eu trabalhava com pintura, cheirava tinta, cola e até cogumelo tomei”.

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“Meu filho lutava para sobreviver. Ele queria uma gota de vida, enquanto nós a jogávamos fora de balde” (Foto: Ellinton Machado)

Tinha uma boa vida, iria completar o segundo grau e fazia curso de torneiro mecânico no SENAI. Sempre trabalhou, porém, na época de maior dependência, o salário era só para comprar droga. Sua vida se baseava nisto: cocaína, cola e maconha. Com cursos como sommelier e gerência de hotel, sempre se destacava em suas profissões. “Eu só não dava valor a mim mesmo”. Quando perdeu Thiago, seu sobrinho, foi morar com a mãe. As coisas só pioraram, pois ela – dominada pela dor – chamava Paulo pelo nome do menino que havia falecido e sofria muito com a perda. Para piorar a situação, tudo isso aconteceu na mesma época da tragédia da Chapecoense.

A cada instante em que as notícias sobre o acontecimento eram transmitidas na televisão, Paulo e sua mãe ficavam ainda mais tristes. Já pensava em dar um basta, pois não aguentava mais aquela situação. No entanto, não foram apenas os dias que passou com sua mãe que determinaram que era hora de parar. Dos momentos ruins que passou com a doença de seu filho, o pior de todos foi quando ele estava na UTI e Paulo decidiu ir atrás do traficante, desesperado, em busca atrás de algo que pudesse aliviar sua dor. “Assim que cheguei no morro, ele me perguntou por que eu estava atrás de droga, quando deveria estar ajoelhado rezando o terço pelo meu filho. Aquilo acabou comigo”. De certa forma, foi a bronca do próprio traficante que o sacudiu, fazendo-o tomar consciência da necessidade de largar as drogas.

Era 23 de dezembro de 2016, quando decidiu dar um basta. Foi embora sem olhar para trás. Como medida de socorro, foi procurar o Padre Prim. Devastado, assim chegou ao Recanto. Abraçado aos pés do padre, implorava por um lugar para ficar. “Não tinha mais vagas e a única opção era dormir no chão. Eu aceitei”. Mesmo admitindo com muita sinceridade ter sofrido várias recaídas, acredita que o tratamento vem dando certo. “Desta vez estou decidido”.

Durante a conversa, deixa claro quanto o amor da família é crucial em sua vida. Perdeu o pai biológico, porém ganhou um pai de coração. Seu tio, que esteve sempre presente quando precisou, consertou sua casa inúmeras vezes depois de destruída nos seus surtos de overdose e confiou em Paulo quando ninguém mais o fazia. Visitou-o dias antes e, chorando, abraçou-o forte, pensando que ele não o veria mais.

O fato de estar firme no processo de reabilitação, significa muito não somente para Paulo, mas para todos que o amam. Grande parte das pessoas se apegam a algo que as faz seguir em frente, que faz a esperança antes se esvaindo brotar novamente em seus corações. Para Paulo, esse algo é a família. Quando fala dos filhos, pais, tio, irmãs, sobrinho, torna-se claro de onde vem sua força. “A minha vida foi muito desastrosa sabe, mas nunca deixei de viver, nunca desisti”.

Como diz o filósofo Khalil Gibran, “Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria”. É o que Paulo resume quando fala sobre recompensas. Nos traços de sua personalidade, deixa transparecer a maneira como encara o mundo: mesmo depois de perder o chão, sabe que tudo pode ser diferente mais à frente. Apesar de tantas vezes não encontrar saída para a dor de perder quem mais amava, Paulo consegue tirar disso uma lição. “Meu filho lutava para sobreviver. Ele queria uma gota de vida, enquanto nós estamos a todo tempo jogando fora de balde”.

“Milagres acontecem”. Foi a frase que guardei desde a primeira vez que o vi, me perguntando que significado teria para ele. Quando falo sobre isso, olha para mim depois de contar sua história e pergunta, humildemente: “Olha quantas coisas boas têm acontecido. Tem como chamar de outra coisa, a não ser de milagres?” Paulo chegou com uma gota de esperança, e foi ela que o manteve até aqui. Uma gota pode fazer toda diferença, e hoje pode afirmar isso com pesar, mas também com a paz de alguém que sabe que dias melhores virão. E mesmo que esses dias sejam difíceis e demorem a passar, leva consigo a certeza de viver cada um deles limpo, só por hoje.

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