Quando o simples olhar de um filho move o pai contra o vício

“Eu pedi para o traficante: dá uma olhada aqui nos meus filhos que eu vou subir lá rapidinho para buscar o pó. Pra tu ver o ponto que eu cheguei”

Por Carolina Saldanha

Pai de quatro filhos, Fábio chama atenção pelo sorriso rasgado no rosto de uma história infeliz. No meio de tantas vidas, algumas tristes e apagadas, encontro nele um habitante dos mais animados e brincalhões do Recanto Silvestre. Ele tinha a idade do mais velho quando cheirou, pela primeira vez, cocaína. Ao partir para sua terceira internação, passou por um dos momentos mais difíceis da vida: contar aos filhos que era dependente químico e que iria ficar um tempo longe de casa para se tratar.

Lidar com a decepção dos filhos para Fábio e muitos dos seus companheiros de luta contra o vício é, ao mesmo tempo, a parte mais cruel e mais estimulante do tratamento. Porque o olhar de um filho pode mover montanhas. “O mais difícil para mim foram os meus dois filhos maiores. Os dois mais novos não entendem ainda, mas eu tive que abrir o jogo para os outros. Fui pegar minhas roupas, chamei eles, comecei a chorar porque vi o meu filho mais velho, o Eduardo, chorando”. Ele perguntou: O que foi, pai? E eu disse: “O pai é usuário de drogas, e o pai está indo se internar”. Aí o mais velho, de 14 anos disse: “Então é por isso que o pai ia para o morro com a gente dentro do carro” e eu disse: “É”.

Com lágrimas nos olhos e o olhar meio perdido, provavelmente revivendo uma das suas memórias mais difíceis, Fábio chegou a levar os dois maiores para a boca do pó quando tinham apenas seis e sete anos. Neste momento, pela primeira vez, este pai me olha nos olhos com uma sinceridade desconcertante, como se soubesse da gravidade do que conta: “Eu pedi para o traficante: dá uma olhada aqui nos meus filhos que eu vou subir lá rapidinho para buscar o pó. Eu entregava meus filhos na mão dos traficantes”, afirma, quase soletrando, como se essa confissão fosse um remédio amargo para a própria cura.

A primeira internação ocorreu quando Fábio ainda tinha 17 anos, na cidade de Tubarão. Hoje, com 37, ele admite, é a primeira vez que está realmente levando o tratamento a sério. Acredita que um aspecto lhe dá vantagem e confiança: a decisão de mudar de vida partiu toda dele. “Me deu um estalo: isso aqui não é para mim. Não tenho mais nada, eu era uma pessoa que tinha tudo e agora não tenho mais nada”. No Recanto, eles não aceitam internações forçadas. Todas precisam partir de uma decisão do próprio adicto.

Foi numa manhã do dia oito de maio de 2017 que tomou a decisão mais importante de sua vida: Enquanto ia, a pé, para o trabalho, mudou de rumo e dirigiu-se para a casa do irmão, que também é usuário, para contar-lhe que iria se internar. Estava cansado do mundo que a droga produzia, cansado de passar dias fora de casa, às vezes semanas, dormindo na rua. “Tive de buscar coragem para contar à minha esposa, Tatiana”.

Perfil Carolina Saldanha - Fábio
“Eu falei pra minha mulher, quando ela veio me ver um dia desses: nem tu me tira daqui, nem tu. Eu preciso disso!” (Foto: acervo pessoal)

Fábio e Tatiana se conheceram quando tinham 19 anos. Seis meses depois, ela engravidou do primeiro filho do casal. O apoio da mulher parece ser essencial a Fábio, que se mostra apaixonado quando menciona sua companheira, o coração despedaçado por ter decepcionado o amor de sua vida. “Quando cheguei em casa, ela estava chorando. Meu irmão já tinha contado. Aí eu já abri o jogo. “Ela me deu mais uma chance. Mas como condição para eu voltar pra casa, devo ficar os seis meses aqui. E é isso que vou fazer. Eu falei pra minha mulher, quando ela veio me ver um dia desses: nem tu me tira daqui, nem tu. Eu preciso disso!”

No domingo seguinte à nossa conversa, Fábio teria a primeira visita da sua família nos primeiros 15 dias de internato, que são de total restrição. Com a voz embargada, narra que um dia, ao conversar com a esposa, ela comentou que a única filha deles, Manoela, contava diariamente ao acordar quantos dias faltavam para visitá-lo.

Pai dedicado, levava os filhos para todos os lugares quando ainda tinha seu carro. Levava-os ao cinema, aos jogos do time do coração da família, o Avaí, no estádio da Ressacada. Passeava com eles por todos os lugares, mas sempre com a cocaína no bolso. “O programa diz pra gente se tratar só por nós, mas eu não estou fazendo isso só por mim. Se eu disser isso eu vou estar mentindo. Eu estou fazendo isso por eles”.

Depois de cumprir os seis meses de tratamento, quando sair do Recanto, Fábio sonha em recuperar a confiança que perdeu de todos com quem convivia. Quer recuperar a dignidade para que todos olhem para ele e pensem que é digno de confiança. “Quero que possam confiar em deixar dinheiro perto de mim e saibam que eu não vou roubar para comprar droga”. Gostaria de fazer coisas simples do dia a dia, como comprar pão para o café da tarde. Tudo de tão simples no mundo que se tornou raro quando a droga transformou a vida em pó.

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