Psicólogo e protagonista da recuperação alheia

Terapeuta do Recanto Silvestre participa do cotidiano dos adictos e da terapia de recuperação

Por Chayene Ribeiro

A conversa com Hildebrando Gomes, psicólogo do Centro de Tratamento de Dependência Química Recanto Silvestre, já se inicia com detalhes de sua vivência com os internos.

Psicólogo do Recanto desde 2006, Hildebrando detalha o funcionamento da casa: os internos acordam às 6 da manhã e se recolhem às 22 horas. As atividades fixas incluem reuniões de conteúdo terapêutico, momentos de entretenimento, aula de fotografia e outras áreas da laborterapia.

Foto Matéria Psicologo Hildebrando (Chayene)
Hildebrando é terapeuta na casa desde 2006 (Foto: Chayene Ribeiro)

Sua postura em relação às histórias dos ex-adictos é sempre profissional. Mesmo tendo amizade com todos da casa, não se deixa abalar pelo drama pessoal de cada um:“Separo os problemas que presencio aqui do meu emocional”, afirma

Apesar da pretendida frieza e do distanciamento profissional, engana-se quem pensa que o psicólogo é insensível com seus pacientes. Sempre sorrindo e contando boas histórias, deixa os pacientes se sentirem confortáveis na sua presença.

No início dos anos 70, em uma viagem de família se apaixonou por Itapema e resolveu morar em Santa Catarina. Natural de Porto Alegre, foi agropecuarista, mas percebeu que sua vida não era atrás de cercas em fazendas. Alternava o estudo entre Cosmobiologia – área em que se formou – e Ciências Econômicas. Mas, só na metade dos anos 90 descobriu sua área de interesse, a Psicologia. Desde então dedica-se a ela.

Sua jornada na recuperação de dependentes químicos começou no Recanto da Esperança, uma casa de recuperação com 60 pacientes, localizado em Florianópolis. “Fiquei reconhecido pelo meu trabalho lá, até que surgiu a oportunidade de fazer uma entrevista de emprego no Recanto Silvestre”. Gostava muito do trabalho anterior, mas resolveu abraçar uma nova experiência.

Hildebrando diz que sua maior missão é resgatar vidas, mas muitas pessoas confundem esse resgate com milagres. Segundo ele, muitos, acham que o psicólogo, o padre que coordena a casa e outros funcionários irão salvar a vida delas “Mas elas precisam se esforçar, precisam continuar o que é ensinado dentro da casa. Geralmente as pessoas não procuram tratamento porque querem se curar sozinhas ou porque não acreditam nele”.

O psicólogo acredita que o trabalho feito nas casas de recuperação deveria ser divulgado, porque muitas pessoas ainda têm preconceito em relação a ex-adictos. Deixá-los falar é, na visão de Hildebrando, também uma forma de incentivar que pessoas com os mesmos problemas busquem tratamento.

Nos anos 90, Hildebrando viajou para Amsterdã e outras regiões da Europa para aprimorar estudos sobre drogas e saber mais sobre a legalização, que era recente em muitos países na época. Mesmo concordando com o avanço social e econômico das nações que optaram pela legalização, ele afirma ser contra a medida no Brasil por um simples motivo:“O álcool é legalizado e nem por isso diminuiu o consumo”.

Para ele, há quem escute sobre drogas, e faça comentários hipócritas e preconceituosos, mas esquece que diariamente abusa-se do uso de drogas lícitas como cafeína, cigarro, medicação e refrigerantes. “Drogas em si não são problema”, afirma Hildebrando. ”Para quem é usuário, as mazelas reais são: desemprego, pobreza, ignorância, políticas seletivas de repreensão e negligência diante de estudos sobre essas substâncias.”

Conhecer este espaço é uma oportunidade para refletir sobre as escolhas feitas na vida e também leva à reflexão sobre a dependência química e suas consequências.

 

 

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