O outro no eu

A experiência de contar na primeira pessoa o recomeço de outro que já teve a certeza de ter tudo e acabou não tento nada além de decepções

Por Matheus Nogueira

Já tive R$ 500 mil nas minhas mãos e torrei tudo. Não sei se esse é o melhor jeito de começar um depoimento, mas muito provavelmente este fato da minha vida me define muito bem. Pensei que tudo estava totalmente resolvido, mas no fim só acabei jogando mais essa oportunidade fora. Foi o último jeito que achei de decepcionar meu velho, visto que a grana veio da sua herança.

Já estava acostumado com o fato de sempre decepcionar as pessoas. Fui internado várias vezes por conta do meu vício, nenhuma surtiu o efeito esperado, pelo contrário. Cada recaída que eu tive foi maior do que a anterior. Essas recaídas só foram me deixando mais longe da minha família. Não me importava na época, achava que só eu me bastava, tinha uma casa, um carro, dinheiro, trabalhava, não precisava deles.

Na fria noite de quinta-feira, chegamos pelo terceiro dia à nossa vivência no Recanto Silvestre. Já familiarizados com o local, fomos logo nos mexendo, afinal, tínhamos pouco tempo e muita trabalho para dar conta. Procurando alguém disposto a me contar sua história, imaginei que a capela, localizada na parte de cima do rio, seria o lugar mais indicado para encontrá-lo.

Foi então que conheci uma mulher. Nunca tinha conhecido uma igual e olha que já tive várias mulheres na vida. Essa era diferente. Ela mexia comigo, tá ligado?  Mas devia saber que não era boa coisa. Eu a conheci no morro.  Ela era ex-mulher do dono desse mesmo morro. Nem liguei pra isso, não me importava, eu tava com dinheiro, dava pra dar um jeito.

Até que chegou um dia em que eu já não tava legal. Acabei fazendo graça com o meu carro e quase atropelei o filho do dono do morro. Não tinha visto o moleque, não foi por querer. Quando eu desci do carro, o cara tava lá. Como a chuva estava forte, ele me mandou entrar na casa; queria ter um papo comigo. Entrei já sabendo que coisa boa não ia sair desse papo. Cheguei na sala e ele já tava lá, apontando uma 38 pra minha cara, dizendo que ia me passar, que eu não tinha noção de com quem estava me metendo. Aí a mina entrou na minha frente. Ela tinha o respeito dele, implorou pra ele não fazer aquilo, chorou aos seus pés. Ele me olhou e disse: “Tá certo, agora essa mulher é tua, você vai cuidar dela e se fizer alguma coisa de errado, você já sabe o que vai acontecer”.

Um lugar diferente do comum, praticamente sem paredes e com uma grande imagem de madeira ao centro, este era o ambiente da capela. Com todos sentados em círculo, contavam histórias de suas vidas. Depois de breves conversas, encontrei  sentado no canto encolhido de frio o meu entrevistado.

Aí começou o meu maior momento de queda. Nós dois juntos torramos toda a grana. Tudo o que eu tinha se foi em festas, bebidas e drogas. Nem por um minuto pensei no que eu estava fazendo. Dinheiro tem fim, ele não é infinito e ela sabia disso. Assim que eu gastei meu último centavo, ela me largou, me deixou sozinho, levou tudo de mim. Para piorar, descobri que ela era garota de programa. Eu normalmente nem ligaria pra isso, mas ela fez disso um segredo e, quando descobri, foi devastador.

Só chorava e bebia o dia todo. Nossa, como chorei por causa dela. Caí em depressão, não tinha mais nada, estava sozinho, percebi o que eu tinha feito, joguei tudo fora, acabei com a herança do meu velho e não fiz nada de importante com esse dinheiro. Precisava me internar novamente, precisava me tratar. Achei o Recanto Silvestre e vim.

Perguntei a ele se poderia fazer a entrevista, ele logo respondeu que não via problema. Saímos do círculo e fomos mais ao canto para evitar um pouco o excesso de barulho.

É difícil aceitar, pensar nisso, mas me toquei. Tenho duas sobrinhas que nem posso ver. Na verdade, só as conheci porque fui visitar minha mãe e elas estavam na casa dela. Não desgrudaram de mim: é o sangue, não tem jeito, pensei. E eu perdi isso, meu cunhado não me deixa ficar perto delas, cara mala, nem colocou o nome do meu pai nelas, tá ligado? Isso é foda, minha irmã também não fala nada, acha que não tenho mais jeito, só minha mãe acredita em mim.

Mas aqui no Recanto estou aprendendo a lidar com isso. Sei que ninguém tem que acreditar em mim se nem eu mesmo acredito. Estou mudando isso, acredito no tratamento agora. Diferente das outras internações, acredito na recuperação.

Alto e magro, com a expressão serena, me olhava com certa timidez e receio de acabar falando algo de que se arrependeria mais tarde. Atento a cada movimento meu, ia me contando as sua dificuldades e frustrações.

No Recanto, é bem melhor que os outros lugares onde já fiquei. Eles me tratam como pessoa, como um ser humano. Isso me faz crer em mim mesmo e, na real, é o que importa agora: eu estar de bem comigo.

Escutava cada uma das falas dele. Falas que faziam sorrir, causavam tensão e vinham acompanhadas do silêncio de uma descoberta. Por fim, o aperto de mão na despedida.

Não sei o que vem pela frente, tenho um trabalho depois que sair daqui. Sou pintor e um amigo me disse que posso ir trabalhar com ele. A mãe me disse que vai me ajudar também a pagar o aluguel. Do resto eu vou correr atrás.  Quero uma vida melhor pra mim e sei que posso conseguir isso.

Materia vivência Nogueira (1)
Adriano Weingartner 40 anos,pintor, adicto na cocaína em recuperação… (Foto: Gilmar Mazzo Júnior)
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