Ele decidiu recusar a herança do vício

Seguindo os passos do pai, Alexandre tornou-se escravo das drogas e em sua homenagem decidiu deixá-las também por amor ao próprio filho

Por Amanda Rutkowski Dutra
Foto perfil Amanda Rutkowski Dutra - Alexandre Cardozo...
Recém-chegado à clínica, Alexandre quer virar o jogo (Foto: Tiago Narcizo)

Alexandre Cardozo perdeu o pai muito cedo para o vício do álcool e das drogas, mas seguiu seus passos desde a adolescência, quando começou a beber e a usar cocaína. Internado há poucos dias no Centro de Tratamento de Dependência Química Recanto Silvestre, quer virar o jogo e vencer o vício. Aos 44 anos, nutre a esperança de uma vida melhor ao lado do filho de sete anos, de quem está distante desde os dois anos, quando se separou de sua mulher Soraia.

Nascido no município de Turvo, no Estado de Santa Catarina, Alexandre Cardozo cresceu em Araranguá, onde viveu com o padrasto e a mãe. Ela sempre soube dos seus vícios, mas até hoje não desconfia que ele fez uso de heroína quando morou na Europa. “Morava com uns amigos, mas não contei a eles que eu usava heroína porque não admitiam isso”, revela.

De volta ao Brasil, Alexandre começou a cursar Enfermagem na Unisul da Pedra Branca, mas devido ao grande movimento de tráfego da cidade, decidiu transferir-se para Araranguá. Porém, quando cursava o segundo semestre, sofreu um acidente de moto que o levou a passar cinco anos internado. Nesse período, conheceu a ex-mulher, enfermeira do hospital. Quando recebeu alta, foram morar juntos em um apartamento no Kobrasol.

O casal se afastou depois de cinco anos de um relacionamento cansativo. Alexandre alega que ela não o ajudava em quase nada nas tarefas domésticas. Depois de um dia de trabalho, tinha que fazer o serviço de casa sozinho, além de cuidar do filho. Por ser muito apegado ao menino, passou por um momento bastante difícil após a separação, quando foi morar sozinho em um apartamento longe da família e acabou buscando refúgio nas drogas.

Os anos passaram e Alexandre foi se dedicando cada vez mais ao trabalho. “Sempre foi mais do que uma obrigação para mim”, enfatiza. Quando ainda era muito jovem, após a morte do pai, seu avô estava disposto a fechar a fábrica de cerâmica da família, pois acreditava que Alexandre não teria competência para aprender a fazer os produtos com a mesma qualidade que o pai.

O neto provou que ele estava enganado. Aprendeu muito bem o ofício, assumiu a direção da fábrica e isso fez com que, depois de um tempo, decidisse parar com a cocaína. Mas o vazio da droga ficou. “Eu parei com a cocaína, mas transferi [o vício] para o álcool e daí não fiquei satisfeito, nada mais fazia efeito. Então decidi fechar a fábrica e ir para Portugal”, relata.

Após fechar a fábrica e se mudar para a Europa, começou a trabalhar como mecânico de carros. Na época em que vivia com Soraia, teve uma empreiteira, que também acabou fechando. Mesmo tendo passado por momentos muito difíceis, Alexandre luta contra as drogas há bastante tempo, sem perder o carisma e simpatia. Já esteve em tratamento no Recanto Silvestre durante um mês, tempo insuficiente para fazê-lo vencer o vício. Disposto a superá-lo, decidiu se tratar  novamente. “Eu liguei para a minha mãe dizendo que iria me internar”, lembra.

Buscando forças na fé para vencer o vício, ele ressalta: “Espiritualidade é tudo, mas muitas vezes não nos damos conta disso lá fora”. Agora ele busca uma vida melhor, quer conviver mais com o filho, de quem sente muita falta. O menino não sabe onde o pai está desde que saiu de casa. “A última vez que  o vi foi no domingo passado, dia 21 de maio”, desabafa. Com ar de saudade, completa. “Ele é a coisa mais importante do mundo para mim”.

 

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